Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

o grampo do horror.

Título: Hamramr.
Roteiro e desenhos: Mike Ratera.
Editorial: Ediciones Glénat España, coleção Tebeos Glénat - Autores Españoles.
Data de publicação: 1995.

[Série de seis comicbooks de 28 páginas (26x17) com capas coloridas e interior em preto e branco. Breve resumo argumental na segunda coberta dos números um até o cinco, e um texto editorial no sexto e derradeiro da série.]

Muitos dos quadrinhos espanhóis que eu mercaba eram cadernos grampados (comicbooks), quando estes ainda eram um objeto diferente das outras moedas comuns na cultura. Esses anos noventa foram a Época do grampo: primeiramente os jovens desenhistas procurando auto-editar seus propios trabalhos, e o surgimento dos editores aficionados. Logo depois daquilo, as editoras profisionais Norma, Glénat España e Planeta DeAgostini começaram a reproducirem o exitoso e estranho fenômeno -ou seria ir um pouco além ao citar o editor legendário, Josep Toutain, e os clásicos grampados Kraken, As de pique, Andrax...- mas atrevo-me a acrescentar que, ainda que não sempre estivessem invariável e corretamente concebidas, as duas linhas editoriais ou colecções que emferrujam e corroem o papel ao seu arredor publicaram os melhores comicbooks que eu li nesse anos.
Existe sim, outra afirmação, eu era leitor devorador de quadrinhos de cavaleria super heróica. Um tipo de banda desenhada comercializado na Espanha no mesmo formato. Esse era o engano maravilhoso!
Como leitor de tebeos, foi uma grande época para mim; as tradicionais revistas de histórias em quadrinhos morreram, mas eu ja tinha encontrado outro alimento. Uma patuscada, fora de horas, de vida breve mas intensa. Pouco mais de nove anos. A Época do grampo.Hoje escolhi duas BDs de horror da colecção Tebeos Glénat - Línea autores españoles, creio que são autores famosos no mundo dos quadrinhos. Quiçã não são. Somente sei que estas imagens furtadas seram uma rúa radial até o centro da única cidade circular realmente existente. Internet.

"O que é mais profundo no homem é a pele" , Paul Valéry

Muitos dos amigos deste blogue, encanecidos leitores doutras torturadas historietas terroríficas, já reconheceram a palavra marcada pelo quadrinista Mike Ratera para titular sua obra, Hamramr, e agora sorriem. Ás claras, lobisomen! Um culto muito maior que o habitual no que o desenhista recria um espacio psicológico e cultural para o lobisomen concentrando seu gesto educado no folclore e a mitologia germânica. Mas ele ordena e estabelece seu modelo dentro dum trajecto afastado do simples catálogo de referências: o acampamento da selvajeria urbana onde mesmo o lobisomem perde a sua pele para mostrar a supervivencia duma antiga tradição ainda não extinguida, a cidade como território.
Não por acaso, o senhor Ratera situa-nos asim perante o horizonte da grande urbe indefendible da Grande Maçã, onde um gigante perfeito (superior) toma o vento e cheira o ar como um animal. Invísivel. Trás do sufrimento, o mal e o vicio das muralhas dos ranha-céus. E atopa a primeira vítima para o sacrifício urbano, um nigger, ou nigga, un descendente dos escravos. Pecando pela drogadicção junto ao sulco da Roma moderna, muro baijo, uma porta redonda pela que os mortos saem da cidade. Ambos são o ideal um do outro, vítima e asasino, en Central Park, os refundadores de Nova York.
O asasino, Erik Wulkan, veste uma gabardine mediante a qual se transmite a brutal analogía da mudança de pele, igualmente utilizada por Frank Miller e seu personagem Marv (Sin City). Ainda que a mudançã de Erik Wulkan resulta mais extrema, pois contrariamente às cicatrizes, o rosto de couro, e o jogo irônico dos sobretudos de Marv, mostra-se como um medio sensorial. As svasticas tatuadas sobre seu corpo são a primeira pista deste caráter sobrenatural de Hamramr.
Depois desa sangrenta refundação da metrópole conhecemos a Clinton, irmã da vítima sacrifical, prostituta e bailarina, uma vingadora que se tornará sensível à fonte natural do poder de Wulkan atravessando sua própia iniciação dolorosa. E a Jacob Levitz, o caçador de nazis. Protagonistas desta história de horror onde se aunam a II Guerra Mundial, a perseguição dos nazistas na América, e a impossibilidade da grande urbe para absorver o social-fragmentário. É nesta senda das lembrançãs do lobisomem que o leitor encontra o dia de sua transformação radical, quando as tropas de Hitler retrocedem em Rússia como animais selvagens. Acredito que podem ser os momentos preferidos doutros leitores espanhóis que ainda recordem estes tebeos; ao labor de documentação do autor sobre a ideologização dos soldados alemães achegam-se os relatos dos guerreiros nórdicos e os ataques de loucura diabólica atribuídos pelo folclore aos homens que se apropiavam das formas das bestas. 
Seria estupido recordar a derivação da palavra hamr, ou as histórias rusas sobre os homens cobertos de peles que percorriam o país saqueando e matando. Mike Ratera tem amalgamado todos esses componentes numa BD mitológica, seu lobisomem mistura o refinamento na crueldade dos soldados nazistas à loucura diabólica das crendices russas e a pele e a roupa das lendas nórdicas. Tal como se pode apreciar na imagem acima, a esquisita crueldade dos soldados semelha-se ao comportamento atribuído pelo folclore russo aos seus lobisomens, o protagonismo do horror sobrenatural é o maior logro. Uma conclusão lógica, pois o embelesso racista do oficial das SS protagonista da história tem seu equivalente expresso pelas expêriencias cosmo-biológicas estudadas por Mircea Eliade sobre a autoctonía mística. (Eu creio que) Só o personagem Slaine de Pat Mills reflite o mesmo sentimento, mas ao pertenceres ao gênero da fantasía heróica é facilmente apreciável. Bem mais fácil do que refleti-lo num quadrinho de horror? Não vou esquecer a pergunta.





Veja agora imagem ao lado, o lobisomem de Mike Ratera. O berseker. Erik Wulkan logo de se transformar no homem perfeito que o fanatismo hitleriano profetizava, eu já anunciei, no passado ou no futuro, gabardine o couro de animal, são o reflexo dum mesmo elemento, a pele. E a mudançã da pele como modificação da experiência sensorial.
Nunca relatarei o que foi de seus soldados. Ou a cerimonia que transformou a Erik Vulkan num monstro superior. Pois quero que os meus vizinhos de blogue possam ler a história. Entre outros 'horrores aos quadradinhos', por exemplo o grampo de Jesús Saiz, Azoth, este tebeo merece ser reeditado na Espanha, ou em qualquer outro lugar. De regresso, enquanto esperamos pelo milagre da reedição deste material popular, repetitivo e mítico, referirei outro dos aspectos mitológicos desta BD: o horror urbano.
Esquecer-vos daquele sovkhoz. O lobo, o cemiterio e as strigoi. Já vos dissem que seu primeiro asasinato new-yorkino aconteceu no centro da cidade? Como Eliade, como Ricardo Barreiro e Juan Giménez, o senhor Ratera conhece a importância do centro. Uma mulher "Es deseo de mi señor Shango que así sea.", um velho judeu "¡Con la ira de Yavé yo te destruyo Golem!", dos tolos assasinos perseguem ao lobisomem; um deles lhe extrairá sua última pele, outro atravessará seu coração. Como num filme de Jon Carpenter, privado de todos seus emblemas mágicos a nova criatura deixa atrás seu passado, a guerra, a ideología nazista, quiçá, a raíz folclórica (demasiado remota) para instaurar un novo terror nos subúrbios. Um horror sem identidade entre os cubos de lixo da cidade.
"O que separa a alma do corpo não é a morte, é a vida.", Paul Valéry, e num meio modelado pelas diferenças sociais e raciais a vida separa os arranha-céus dos príncipes que os levantaram. Neste ordem formal do universo cada assasinato, cada ato de desigualdade, refunda a cidade, então o lobo não precisa de sua pele.
 


- Uma história de Mortadelo e Salaminho/Salamão e Mortadela com roteiro e desenhos de Mike Ratera no blog [link]--> El rincón de Mortadelón
- Resenha de Hunter no blog []--> markowsky4ever.blogspot
- Mike Ratera em []--> Historeitistas españoles de la A a la Z








 - Blog do quadrinista []--> mikeratera.blogspot.com
- Mike Ratera e Conan []--> Ultimate Conan Fanblog


 

Título: Hombres y bestias.
Roteiro e desenhos: Rafael Garrés.
Editorial: Ediciones Glénat España, coleção Tebeos Glénat - Línea Autores Españoles.
Data de publicação: 1995.


[Série de três comicbooks de 28 páginas (26x17) com capa colorida e interior em preto e branco. Texto editorial na segunda coberta dos números um e três, e uma secção de cartas dos leitores titulada Correo de Necrópolis.]

Este outro tebeo também pertence a mesma editora e colecção do grampo enferrujado, Tebeos Glénat - Línea Autores Españoles. Hoje não me lembro se Hombres y bestias foi a primeira série da colecção, uma colecção esquecida que se viu eclipsada pelos comicbooks espanhóis da Línea Laberinto que sua competidora Planeta DeAgostini começou a publicar depois do lançamento dos grampos de Glénat. Ambas as duas colecções estouraram. 




Sangue, garras e fome insaciável crescem na Necrópolis de Rafa Garrés em semelhançã aos quadrinhos extremamente impactantes dos anos noventa chegados do mercado norteamericano. Uma história singela, um espaço desabitado, inexplorado, no que desaparece um grupo de duros soldados acostumados as atrocidades. Necrópolis, a cidade do futuro: "O que é a Necrópole? A Necrópole é um pesadelo postindustrial que se estende numa extensão de centos de quilómetros quadrados ao redor de New City. Faz alguns anos era o paradigma do progreso industrial." Trata-se do elemento mais atrativo da história, ainda que de forma quase embrionária; de fato, eu não sei se Necrópolis é o arrabalde da cidade ou seu antigo centro transformado pelo conjunto de gigantescas fabricas. Agora abandonadas, estas construções aparecem alagadas e convertem-se em subterâneos. Junto delas resiste uma catedral.






 

Este gibi não possui elementos sobrenaturais que eu saiba apreciar, mas o protagonista e seus adversários são personagens clássicos: Sabage, um mutante (espécie de licantropo), e o comando de metahumanos Termination Force. Quer se divertir averiguando quem persegue a quen? Todos eles são caçadores, mas só duas das bestas possuem uma natureza antiga. Uma casta ou raça.
Em qualquer caso, o passado de Sabage concorda com signos apocalípticos deste futuro postindustrial, e parece confirmar que as cabeças dos mortos devem-se enterrar dentro da cidade. Inimigos inesquecíveis e velhas armaduras.






 

- Rafa Garrés [link]--> Imakinarium
- Blog do desenhista []--> garres2.blogspot.com 

- Conan e Garrés []--> The Ultimate Conan Fanblog


Um comentário:

Ismael Fancito. disse...

O quadrinista Kike Benlloch no correo do número 2 da série:

"[...]Por mi parte, lo tienes claro: he dejado de comprar X-Force [...]y esas preciosas 195 ptas. mensuales ya están para el título Hombres y bestias. Vamos a darle por el saco a la gran M. Te mando fuego de cobertura, Rafa; tú alcanza la posición y vamos a reventar a los jodidos americanos [...]"