Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Vampirismo vira ordalía quadrinística e iniciação feminina.

Título: El lado salvaje. La esencia del vampiro.
Roteiro e desenhos: Rafael Fonteriz.

Editorial: Diábolo Ediciones.

Data de publicação: junho de 2010.


[Álbum colorido, capa dura, 126 páginas e formato horizontal (28 x 20). Inclui estudos, esboços, capas alternativas e um prólogo do escritor, roteirista e crítico de quadrinhos, Rafael Marín.]


Um outro olhar para o vampirismo, o desenhista Rafael Fonteriz têm recaída e volta a criar uma nova HQ com vampiros, médicos e polícias.
Anteriormente já teve desenhado vampiros para Roy Thomas e Dan Abnett, Carmilla (Dude) e Nocturne (Marvel UK), e ele escreveu e desenhou a série sobre vampirismo infeccioso titulada Efecto dominó na revista El Víbora, logo depois reformulada para sua recopilação (Edicións de Ponent), e é que com essa experiência presente naquelas histórias em quadrinhos cresce desmesurada e inteligentemente esta sua nova obra aunando os aspectos sociais e de transmutação feminina do horror característicos do gênero vampírico. O controle social, sanitário e militar, desenvolvido em Efecto dominó onde o vampirismo aparece como uma praga unida ao sexo e transmitida desde as capas dos desfavorecidos e as gentes excluídas, os parênteses e esvaziamentos da sociedade que combatem uma agrupação extraordinária de polícias, encontra um melhor desenvolvimento em El lado salvaje misturándo-se com a projeção de morbidez feminina e a segregação da puberdade mostrada em Carmilla.

Combinação de enfoques sobre o género vampírico na que a divisão sexista do mundo e o confronto entre a razão objetiva e a subjetividade temible e escura submergem ao leitor na lagoa e a umidade da essência do vampiro, todas suas ténues cores, roteiro e história não encontrarão BD vampírica com a que compararse.
Seria divertido recordar a René Guénon pois a história começa no momento em que o psiquiatra Fernando Giménez toma uma adolescente que se encontra hospitalizada sob sua proteção, adolescente de corpo perfeito submergida num estado de coma profundo sem clara explicação médica. Isabel, a filha de seu melhor amigo, suspeita da morte dos pais é pouco mais do que um corpo incorrupto, uma virgem e, sobretudo, uma mulher encerrada; uma mulher que não pôde mudar, o desvio que os primeiros e mais importantes agentes da sociedade, os pais, não souberam conducir e que Fernando espera 'curar'. Para além de marcar o regreso do passado, o presente, e, a sua vez, um futuro de pesadelos, se entrecruzan e sobrepõem com a investigação policial descobrindo o mundo subterrâneo de depravación pelo que transitou Isabel. Aí, numa dupla perspectiva dos acontecimentos passados e os movimentos de médicos e detetives Fonteriz promove uma sucessão de mudanças de cor segundo o tempo da ação; reabilitando o mistério da animação do passado como um fantasma, os valores culturais se vão degradando. Acidentalmente se descobre a vitalidade sobrenatural do sangue de Isabel, os detetives se infiltram numa comunidade de jovens góticos com a ajuda duma jornalista enquanto se sobrepõe a divisão sexista dumas cerimônias sangrentas no presente e a fugida do lar no passado.
Na medida em que Fernando recupera o passado o ritmo cíclico formador do simbolismo do vampiro se volta presente, e o confronto com os pais se homologa ao rito inicial da tomada de sangue que começa no cemitério. Onde a agente policial Rosario se perde numa experiência extática de redução do tempo com o que o espaço adquire carateres qualitativos, morte e renacimento, como domadora do subconsciente Isabel leva a realizar um último ato nefasto, lascivo, o reprimido desejo sexual, e Fernando derrama seu próprio sangue sobre o corpo da adormecida que o devorará. Completado o sacrifício (o intercâmbio) a virgem transforma-se em virgem caçadora.

Acho que com certeza René Guénon apreciaria o vampirismo de El lado salvaje como uma Ordem iniciática feminina, ele, que escreveu sobre a impossibilidade de procurar para a mulher esse espaço no mundo ocidental, hoje se surpreenderia de encontrar a sobrevivência desse ritmo antigo numa manifestação de raiz popular como os 'tebeos'. Esa subjetividade identificada ao feminino no par fêmea/macho como modelo de dualismos... A mulher, o terror, o tabu, a prohibição ritual ou religiosa. Mênstruo vampírico e liberador que forma às mulheres do destino, pois os segredos destas obscenas hilanderas de sangue de Fonteriz aumentam com a separação do corpo social e a esfera familiar. Um processo arquetípico dentro do qual o Vampiro fica sumido nas sombras, presentiido e mais temível por sua natureza oculta.
Em resumo, outro desenhista que nem precisa roteirista.

Resenha radiofónica [link]--> Viñetas y bocadillos

[]--> Prólogo de Rafa Marín
Fonteriz Sketch BLOG []--> formato álbum

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A coêrencia da projecção espacial.

Título: Versus.
Roteiro: Josep Maria Polls.
desenhos:
José María Beroy.
Editorial: Diábolo Ediciones.
Data de publicação: 2010.

[Álbum brochado com capa cartonada (30x22 cm, 60 páginas). Inclúe uma biografia e um retrato dos autores realizado pelo desenhista, modelos prévios de quadrinização, além de esboços de personagens e as capas da primeira versão de Versus (1994).]

Na Espanha o fundamento absoluto das grandes editoras (Panini, Planeta e Norma Editorial) é conhecido como o 'inmovilismo editorial', com o que infectaram à maioria de leitores. Tão certo quanto leitores e grandes editorias lograram criar uma vida artificial à que chamam mercado ou indústria que nada mais é do que tubo de ensaio do franquiciado e o eterno retorno. As reediçãos. Inclusive quando tentam realizar um movimento original, as grandes editorias só imitam às pequenas editoras; comportamse junto com seus leitores como seitas, incapazes de se englobar dentro duma totalidade de leitores e editores de quadrinhos ao redor dum mesmo mercado, como numa religião, uma mistura de santos e pecadores, senão só entre eles mesmos.
Creio que a situação é idêntica noutros países, Brasil, Portugal, onde os únicos editores capazes de ligar valores ético-sociais de recuperação histórica ao componente nostálgico para a reedição da obra de autores nacionais são pequenos editores, ou editores que criaram estruturas editoriais permeáveis e independentes que hoje possam trabalhar numa grande companhia, como Joan Navarro (Glenat). Desconheço informações precisas sobre o nascimento de Diábolo Ediciones e a trajetória profissional de seus editores Pilar Lumbreras e Lorenzo Pascual, o seu catálogo de álbums e revistas: www.diaboloediciones.com


A reedição de Versus não produz a sensação duma recuperação histórica, a marca de obra esquecida, nem sequer adoece dessa outra condenação nostálgica da pugna por reintroducir aos autores entre as tropas de seus 'antiquados' admiradores, pois sua construção desprega ardis comuns aos modernos seriados televisivos estadounidenses como Lost -nesse setor, o do jogo dos influxos dos destinos espaciais e personagens fronteirizos, a BD tem uma trajetória muito maior do que as ficçãos televisivas-. Ademais, roteirista e desenhista adicionaram novas páginas e figurações ativando as latências argumentais sugeridas nas quatro histórias originais que compunham esta obra (serializada na revista Cimoc, 1993, e recopilada num velho e, hoje, estúpido e obsoleto álbum):
Tomando o confronto como propriedade semântica, José María Beroy e Josep Maria Polls
criaram posições argumentais ancoradas nuns cenários onde a liturgia da repetição reduz a possibilidade de ação de seus personagens/atores à fugida e a perseguição. Autoestradas, desertos, autocinemas (drive-in), canódromos, trapaças de amor e apostas ilegais, o oceáno em nenhum lugar, colares afundados, ou um restaurante lendário freqüentado por mafiosos, são as ambientações que motivam as confrontaçãos; espaços atrapados em movimentos simples que podem desorganizarse pela mais mínima reação dos elementos que cruzam tentando despegarse de suas próprias coordenadas sociais e vitais; o iminente, o imprevisto, o alheio, o estranho como elemento desfacedor e criador de estruturas, um dos temas recorrentes na obra do desenhista, a complexidade crescente das relações sociais e a necessidade oculta, particularmente integrada, dos inimigos da ordem.
Solitários, inimigos e aliados comprometidos contra a ordem e pela ordem , portanto, personagens tópicos, formados duma única impressão, imprescindíveis e reconhecíveis. É fácil admirarse ante a sua funcionalidade, lembrar os modernos seriados televisivos, ou os escritos de Claude Lévi-Straus sobre as parelhas dioscúricas, pois as novas páginas inseridas entre as quatro histórias originais introduzem uma tríade de personagens ao serviço de Versus (empresa sinistra), sicários que desde os limites do tabuleiro põem em movimento a antinomia que implicam os adversários. Vigiando paralelamente seu sacrifício nesse intercâmbio entre o passado dos personagens e seu futuro; por exemplo, na primeira das historias, sabemos do bandido Harry Cáctus Sullyvan e o sheriff Pinkston, unidos pelo lírismo mítico da perseguição de forajidos e o mantimento da ordem no velho-novo Western nos EEUU, o passado e um futuro presente no que o sheriff caduco, e cego sem seus óculos, não consegue, como os velhos reis dos mitos e os contos antigos, aliarse com o jovem herói representado por um menino sardento que lhe acompanha em sua última perseguição dum Cáctus Sullyvan cujo emblema é uma tatuagem de Bugs Bunny na mão esquerda. Na fim, o processo dramático remata numa cerimônia orgiástica de assassinatos fortuitos num autocine, no que se assegura e se mantém a relação de confrontação ao assimilar o decaído sheriff Pinkston com o personagem dos Looney Tunes Elmer Fudd (o caçador), do que se está a visionar uma curtametragem.
De um modo que eu não sei explicar, as analogias contidas nestas HQs curtas se convertem pela inclusão da tríade de agentes da empresa Versus num processo dramático de grande eficácia com o que Polls e Beroy mostram que as distinções, as oposições, nem sempre devem refletir a necessidade mística da união da totalidade, a famosa coincidentia oppositorum que os roteiristas da
DC amam, senão, as vezes também (esta é a razão de minha invocação a Lévi-Strauss) a ficar sujeitos por sua própria coerência. Para sublinhar a complementaridade impossível e necessária dos limites entre os antagonistas, de fato, realmente a figura alegórica (quase simbólica) de Batman sobrevoa este 'tebeo' e aparece como uma das estátuas de atrezzo no local onde se reunen os agentes dioscúricos.
Sua capa constitui uma homenagem à dinâmica da circulariedade e à simbólica do azar, o sacrifício e os intercâmbios mágicos e psicológicos, em resumo, a melhor BD realizada em lembrança do antropólogo Lévi-Straus.
Tudo começa imaginando um lugar, quase uma paisagem, porque qualquer confronto possui seu espaço específico. Uma lição magistral ja esquecida por muitos roteiristas e criadores de quadrinhos em todo o mundo.

versuscomic.blogspot.com



Versus na web [link]--> Imakinarium

Catálogo da exposição de Beroy no 7º Saló del Còmic de Barcelona, que teve lugar entre 18 e 21 de Maio de 1989 no Mercat del Born
[link]--> Bibliotecas Municipais de Lisboa

[]--> O Herói trapaceiro. Reflexões sobre a figura do trickter.