Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Rei dos quadrinhos alternativos.

Título: El último hombre.
Roteiro e desenhos: Miguel B. Núñez.

Editorial: Ediciones Doble Dosis, coleção Los Tebeos paralelos (nº 10).
Data de publicação: maio de 2001.


[Comicbook (24x17, capa colorida
, 23 páginas), preto e branco. Recompilatório das historietas publicadas nos fanzines Idiota y diminuto e Calle 13 edição Especial Salón del cómic de Barcelona 2000, com uma história inédita.]

Rei dos quadrinhos alternativos. Nada mais nada menos do que um título engraçado com uma baforada de autenticidade, iso mesmo, pois os tebeos e historietas de Miguel B. Núñez são as histórias em quadrinhos que lêem os famosos. Outra baforada. Mas tem espessura e muitos críticos e quadrinistas entremostram envolta na luz vaporosa da divulgação o apreço que sentem pelo interes estilístico ou estructural, pela lógica de seus pequenos protagonistas e o simbolismo do ambiente das histórias deste autor.
Quiça a inventiva fantástica esteja feita de recortes, desenhos recortados como os que se podem apreciar nas compilações de contos fantásticos. Se supomos que essa afirmação é verdadeira, os leitores que foram torturados nos primeiros anos de vida em sessões maratonianas de cinema de série B deveriam ler El último hombre de Miguel B. Núñez da mesma maneira que leriam as instruções dum manual de sobrevivemcia espiritual, procurando a felicidade nos Santos óleos da angustia e a repressão. Quiçá mercar BD alternativa é um ato desesperado.
"Un tebeo repleto de reflexiones... y vacío de palabras" assim apresenta M, alter ego do autor (figura principal noutras HQs), esta translação das paisagens míticas de Eu sou a Lenda, The Omega Man ou The last man on Earth, em que os eixos sossego-agitação se tornam semelhantes à aventura oniromântica dum homem solitário que vaga por cidades e espaços desérticos ameaçado por todo tipo de criaturas mutantes. Monstros contra monstros envoltos numa luta pela economia expresiva em contraposição à personagens carentes duma finalidade na vida, particularmente seu protagonista, sempre no limite de ser devorado ou destruído. É esse mecanismo fantástico tão rudimentario o que privilegia o essencial, sem argumentações nem notas explicativas, o que associa as pequenas histórias sem palavras recopiladas aqui. Um exemplar mostruário de sofrimentos e medos sem recompensa. Mas uma fábula feliz para os leitores porquanto podem descarregá-la gratuitamente no blog de Miguel B. Núñez (clicando na capa situada no lateral do blog) [link]--> miguelbn.blogspot.com



Título: Stroszek.
Roteiro e desenhos: Miguel B. Núñez.

Editorial: La Cúpula, coleção Brut Comix.

Data de publicação: 2001.


[
Caderno grampado (24 x 17, 34 páginas) com capa cartonada e colorida. Prólogo do desenhista Paco Alcázar.]

A coleção Brut Comix foi (eu creio) uma das últimas tentativas por reunir para os leitores espanhóis uma série de autores estrangeiros de prestígio como Daniel Clowes, Dave Cooper, Beto e Jaime Hernández, Charles Burns, Gilbert Shelton, Peter Bagge, apresentando obras de jovens desenhistas espanhóis, Diego Olmos, Daniel Acuña, Santiago Arcas, Man, Vicente Cifuentes, David López, Paco Roca, Quin Bou, Juaco Vizuete, junto aos autores alternativos, hot artists dos estantes alternativos nas livrarias alternativas freqüentadas pelos leitores alternativos da narrativa desenhada alternativa em língua castelhana, Santiago Sequeiros e Miguel Ángel Martín. Comicbooks de até 64, 34, 50 páginas, e um preço muito barato de 2'85, 1'65, 2'25 euros. Mas nem tudo foi exitoso, esta coleção da editorial La Cúpula também teve as suas fraquezas, como o formato reduzido; ainda que a meirande parte das obras espanholas incluíam esboços, prólogos e desenhos extraordinários.
Novamente é M o que mostra a história: Stroszek começa com seu protagonista recordando os fatos que o levaram ao exílio depois de ter sido recebido como um herói (após salvar o planeta numa missão suicida). A bordo de sua nave espacial Stroszek está a caminho de Órion, planeta da libertinagem, iniciam-se as orgulhosas aventuras erótico-machistas que gradualmente introduzirão ao herói espacial numa batalha pela dominação sexual. Uma guerra sádica que explodirá seus condicionamentos genéticos e socioculturais até que Stroszek se transforme numa mulher. Ciência ficção, amazonas canibais, mutilações sagradas oferecem um espetáculo de júbilo e o extravio permanente onde jogar com sugestivas interpretações a respeito da crise duma de nossas instituições: o macho, o protótipo de homem superior.

"Un tebeo para hombres"
Confesso que ler esta ofensiva BD deu vontade de realmente vivir as situações aberrantes padecidas por Stroszek. Creio que resulta natural, pois o prólogo de Paco Alcázar transcibe uma frase de Alejandro Jodorowsky que Miguel B. Núñez recorda como uma sentença. Um contínuo e profundo estarrecemento ante os esquemas elementares, míticos, como a predisposição social ao sofrimento emocional dum relato excêntrico próximo ao estádio cultural de Anibal 5. Mas tomando emprestado o título dum filme de Werner Herzog.
A União de Mulheres contra o poder fálico. Provavelmente meu tebeo de Miguel B. Núñez favorito.



Título: El corazón de los árboles.
Roteiro e desenhos: Miguel B. Núñez.
Editorial: Polaqia.

Data de publicação: 2009.


[Volume recompilatório com badanas (24x17), capa colorida, preto e branco, 78 páginas. Prólogo do desenhista Paco Alcázar
, uma breve biografia e um retrato de Miguel B. Núñez desenhado por Paco Alcázar. Inclui uma recapitulação das histórias indicando data de publicação e nome da revista ou fanzine onde foi publicada pela primeira vez, notas e comentários dos referentes ou ocorrências que estimularam a criação das HQs.]

Eu já disse que as histórias em quadrinhos deste desenhista são os tebeos que lêem os famosos. Nem sequer assim as grandes editoriais espanholas nem as conhecidas como editoriais independentes se disputam publicá-los. As secretas leis do mercado quadrinístico espanhol (virado ao fenómeno da graphic novel) não favorecem a recopilação de histórias curtas, é por isso que El corazón de los árboles pôde ser uma das novidades mais especiais do ano 2009. No final deste post, as entrevistas linkadas detalham a forma quase fortuita em que foi publicada pelo coletivo Polaqia que integram outros desenhistas e roteirista como Kike Benlloch, David Rubín ou José Domingo.
Entre o conjunto de histórias encontraremos experiências vividas de tempos passados,outras imersas em referentes históricos, folclóricos, culturais, ou desafios cotidianos que compartilham uma mesma particularidade: a deserção do sentido unívoco.
Os efeitos da queda numa margem entre a percepção e a interpretação pode escarnecernos; assim, na história titulada Cazando tigres um grupo de adolescentes realiza seu rito de passagem, que lhes suscitará aversão ou atracção, pelo que devem conviver na casa comunal estabelecendo relações sexuais com todas as moças que desejem antes de casar-se segundo uma lei que lhes impede tomar por esposa a qualquer das mulheres que vissem como amantes. Uma forma de imersão social sob o signo da carência cujo desenlace, igualmente desastroso para os três protagonistas, eles não podem preveer nem comunicar enquanto se encontram expostos às múltiplas interpretações do rito. Rito que lhes prepara para enfrentar o Tempo dos adultos. Um tempo diferente ao dos adolescentes no que só cabe uma possibilidade, uma única eleição frente a todas as possibilidades desses seres em estado de mudança entre a meninice e a maturidade aos que se lhes está negando uma formação individual completa que respeite e consagre sua natutaleza plural. .
Os 11 quadrinhos restantes compõem as mais frágeis impressões. Outras gravuras cruéis, raivosas e tristes, com nazistas, judeus, deuses tiroleses, cientistas, imperadores, anões e gigantes. Uma das buscas mais urgentes tem por cenário um quartel do exército nazista e um homemzinho obcecado por arrumar um acidente que provocou que um de seus brinquedos começasse a variar suas sensações sobre si mesmo. Titula-se ¿Quién hace a los nazis? e foi publicada na revista Strapazin (número 74) num monográfico sobre Espanha coordenado pelo desenhista Max. Até então inédita em esta terra de Sancho Panzas.

Guía del cómic
(entrevistas) []-->
1 e 2
Influencias []--> Chiqui de la Fuente
Entrecómics []--> Miguel B. Nuñez Vs. Peter Brueghel




Título: Muertemanía.

Roteiro e desenhos: Miguel B. Núñez.

Editorial: Astiberri, coleção Lecturas Compulsivas.

Data de publicação: 2003.


[Álbum recompilátorio (24 x 16), 32 páginas, preto e branco. Inclui um prólogo do desenhista Max.
]

Não soube escanear nem encontrei uma imagem (desenvolvida em escala de gris) do personagem mais emblemático criado por Miguel B. Núñez, Morte. Mais uma situação ridícula no blogue, se eu não posso roubar uma imagem pareço incapaz de escrever... Decidi então seguir e roubar ao prologuista de Muertemanía (esta é a BD que lêem os famosos):




Título: Sònic còmix.
Roteiro e desenhos: vários autores.

Editorial: Inrevés.

Data de publicação: 2001.


[Caderno grampado (26x17), capa cartonada, 50 páginas, histórias em preto e branco e coloridas. Inclui biografias dos autores participantes na exposição de quadrinhos do Festival Isladencanta: Javier Olivares, Max, Santiago Sequeiros, Batia Kolton, Matti Hagelberg, Hendrik Dorgarthen, Julie Doucet, Miguel B. Núñez, Keko, Max Anderson, Gabi Beltrán.]


Creio que esta é uma HQ muito especial, um projeto original coordenado pelo quadrinista Max para o festival musical Isladencanta. Reune quadrinhos de onze autores com um tema comum entre todos eles: o som. Cuja ubiquidade foi tão imaginativamente plasmada nas histórias em quadrinhos como difícil resulta dominar a duração da elipse narrativa.
A obra de quatro páginas realizada por Miguel B. Núñez para Sònic Còmix apresenta a dois personagens em luta rodeados de metáforas inductoras, elementos alegóricos auxiliares da ação que se desliza mediante a invasão sonora. Agressão que converte ao protagonista num objeto de exploração submetido à repetição duma mensagem monótona e ensordecedora destinada a orientar suas necessidades mais íntimas. Ainda que finalmente ele conseguirá destruir essa automatização infecciosa do som afastando-se nu da cidade e encontrando a transcendência do silêncio .
Um tebeo experimental, obra de imaginação e divertida.





[]--> cuerpos.bandcamp.com

[]--> romanfire.blogspot.com

sábado, 25 de dezembro de 2010

Mortos-vivos e direitos humanos.

Existem sites de relacionamento para zombies fãns de quadrinhos de zombies? Se vossos amigos são zombies enviai-lhes esta direção eletrônica [link]--> finado.net

No grande auge da coisa, Xavier Morrell tem disponibilizado gratuitamente sua obra Finado mediante leitura online (com licença Creative Commons), BD criada em 2004 que
despois de várias tentativas de publicação nunca pôde ser lida. Sua idéia é restituir a substância política que caracterizou a este gênero, assim sendo, encontraremos um mundo como o nosso onde uma pequena cidade nos EUA chamada Finado ficou dividida em duas zonas urbanas repartidas entre o Sul e o Norte por um grupo de ambientalistas, anarquistas, comunistas, pacifistas e outros seres humanos igual de sensíveis, e a companhia dos irredutíveis homens do capitalismo patriótico regidos pelo Sheriff. Mortos-vivos e símbolos do No man's land (uma igreja cheia de gente viva ou morta e um centro comercial asolado por jovens). No entanto, a clave da natureza desta história em quadrinhos tem um caráter sexual que começará a ser desvelado neste primeiro número da série.
Com roteiro de Xavier Morrell, desenhos de Fabian Slongo e colorização de Nicolás Brondo, a socialização de Finado se acompanha com portadas e cartazes realizados por Konstantin Novosadov recordando à propaganda soviética.

[]--> The Zombies's blog

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Vampirismo vira ordalía quadrinística e iniciação feminina.

Título: El lado salvaje. La esencia del vampiro.
Roteiro e desenhos: Rafael Fonteriz.

Editorial: Diábolo Ediciones.

Data de publicação: junho de 2010.


[Álbum colorido, capa dura, 126 páginas e formato horizontal (28 x 20). Inclui estudos, esboços, capas alternativas e um prólogo do escritor, roteirista e crítico de quadrinhos, Rafael Marín.]


Um outro olhar para o vampirismo, o desenhista Rafael Fonteriz têm recaída e volta a criar uma nova HQ com vampiros, médicos e polícias.
Anteriormente já teve desenhado vampiros para Roy Thomas e Dan Abnett, Carmilla (Dude) e Nocturne (Marvel UK), e ele escreveu e desenhou a série sobre vampirismo infeccioso titulada Efecto dominó na revista El Víbora, logo depois reformulada para sua recopilação (Edicións de Ponent), e é que com essa experiência presente naquelas histórias em quadrinhos cresce desmesurada e inteligentemente esta sua nova obra aunando os aspectos sociais e de transmutação feminina do horror característicos do gênero vampírico. O controle social, sanitário e militar, desenvolvido em Efecto dominó onde o vampirismo aparece como uma praga unida ao sexo e transmitida desde as capas dos desfavorecidos e as gentes excluídas, os parênteses e esvaziamentos da sociedade que combatem uma agrupação extraordinária de polícias, encontra um melhor desenvolvimento em El lado salvaje misturándo-se com a projeção de morbidez feminina e a segregação da puberdade mostrada em Carmilla.

Combinação de enfoques sobre o género vampírico na que a divisão sexista do mundo e o confronto entre a razão objetiva e a subjetividade temible e escura submergem ao leitor na lagoa e a umidade da essência do vampiro, todas suas ténues cores, roteiro e história não encontrarão BD vampírica com a que compararse.
Seria divertido recordar a René Guénon pois a história começa no momento em que o psiquiatra Fernando Giménez toma uma adolescente que se encontra hospitalizada sob sua proteção, adolescente de corpo perfeito submergida num estado de coma profundo sem clara explicação médica. Isabel, a filha de seu melhor amigo, suspeita da morte dos pais é pouco mais do que um corpo incorrupto, uma virgem e, sobretudo, uma mulher encerrada; uma mulher que não pôde mudar, o desvio que os primeiros e mais importantes agentes da sociedade, os pais, não souberam conducir e que Fernando espera 'curar'. Para além de marcar o regreso do passado, o presente, e, a sua vez, um futuro de pesadelos, se entrecruzan e sobrepõem com a investigação policial descobrindo o mundo subterrâneo de depravación pelo que transitou Isabel. Aí, numa dupla perspectiva dos acontecimentos passados e os movimentos de médicos e detetives Fonteriz promove uma sucessão de mudanças de cor segundo o tempo da ação; reabilitando o mistério da animação do passado como um fantasma, os valores culturais se vão degradando. Acidentalmente se descobre a vitalidade sobrenatural do sangue de Isabel, os detetives se infiltram numa comunidade de jovens góticos com a ajuda duma jornalista enquanto se sobrepõe a divisão sexista dumas cerimônias sangrentas no presente e a fugida do lar no passado.
Na medida em que Fernando recupera o passado o ritmo cíclico formador do simbolismo do vampiro se volta presente, e o confronto com os pais se homologa ao rito inicial da tomada de sangue que começa no cemitério. Onde a agente policial Rosario se perde numa experiência extática de redução do tempo com o que o espaço adquire carateres qualitativos, morte e renacimento, como domadora do subconsciente Isabel leva a realizar um último ato nefasto, lascivo, o reprimido desejo sexual, e Fernando derrama seu próprio sangue sobre o corpo da adormecida que o devorará. Completado o sacrifício (o intercâmbio) a virgem transforma-se em virgem caçadora.

Acho que com certeza René Guénon apreciaria o vampirismo de El lado salvaje como uma Ordem iniciática feminina, ele, que escreveu sobre a impossibilidade de procurar para a mulher esse espaço no mundo ocidental, hoje se surpreenderia de encontrar a sobrevivência desse ritmo antigo numa manifestação de raiz popular como os 'tebeos'. Esa subjetividade identificada ao feminino no par fêmea/macho como modelo de dualismos... A mulher, o terror, o tabu, a prohibição ritual ou religiosa. Mênstruo vampírico e liberador que forma às mulheres do destino, pois os segredos destas obscenas hilanderas de sangue de Fonteriz aumentam com a separação do corpo social e a esfera familiar. Um processo arquetípico dentro do qual o Vampiro fica sumido nas sombras, presentiido e mais temível por sua natureza oculta.
Em resumo, outro desenhista que nem precisa roteirista.

Resenha radiofónica [link]--> Viñetas y bocadillos

[]--> Prólogo de Rafa Marín
Fonteriz Sketch BLOG []--> formato álbum