Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Martínez el facha.

A História exibe a seus pequenos monstros depois que decorreu tempo suficiente da extinção das Grandes Bestas da Humanidade. E o faz depressa, pois ainda ninguém sabe se a extinção será felizmente irrepable ou os filhos da Besta encontrarão algum método sinistro de devolver-lhe a vida a seu protetor.
Que tempo dispomos até que a próxima Grande peste caia em cima da História?

No final do 'franquismo' -ditadura franquista- produziu-se em Espanha um enorme crescimento da imprensa humorística com muitíssimas revistas de histórias em quadrinhos de humor azedo
porém só El Jueves publicas-se atualmente. Mas por sua vez um personagem daquele primeiro número de 1977 aparece ainda nas páginas desta revista, o seu nome é Martínez el facha.
Martínez ( o do grande nariz) foi um soldado do bando fascista do ditador espanhol o General Francisco Franco e o protótipo do 'facha' -palavra utilizada para referir-se à pessoa de ideologia política reaccionária- sempre em absurdos negócios ou missões unidas a acontecimentos da atualidade espanhola e internacional. Junto ao senhor Morales, Adolfito, o sacerdote argentino Bocquerini e outros muitos personagens característicos de diferentes graus do espectro reaccionário espanhol, Martínez fracassa na sua defesa do velho ordem moral católico frente as mudanças sociais.
Kim, desenhista e criador desta HQ, utiliza todos os recursos possíveis: lemas políticos nos títulos de seus quadrinhos como o "¡España va bien!" do expresidente Jose María Aznar ou até introduzir personalidades reais e transladar seus personagens a os conflitos internacionais, grandes acontecimentos políticos, onde tudo é criticado convertendo cada nova recopilação de suas aventuras semanais numa crônica de fatos históricos e evolução dos costumes de sua sociedade.
Nesta história em quadrinhos de 1998 Martínez, o sacerdote Bocquerini e o senhor Morales disfarçado de Papai Noel, viajam a Inglaterra para alegrar o natal ao ditador chileno Pinochet, detido depois da reclamação de extradição por crimes contra a humanidade feita pelos órgãos de justiça espanhóis (o juiz Garzón). O conhecimento dos fatos históricos aumenta o valor da leitura desta obra de Kim ainda dez anos depois. Uma guia histórica surpreendente.
Links:
Martínez el facha e Kim.
El Jueves.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O mangá de Brocal Remohí.

Título: El Brazo de Dios (Kami no ude na edição japonesa).
Desenho e roteiro: Jaime Brocal Remohí.
Editorial: Planeta de Agostini Comics (a editorial japonesa Kodansha na revista de histórias en quadrinhos Afternoon).
Data de publicação: 1996 na Espanha (1993 e 1994 no Japão).
[Formato comic-book 17x26, cinco números com 56 páginas cada um, enquete editorial nos números 2 e 4, seção de anúncios (Oriental connection) nos 2 e 5, seção de fanzines sobre manga (Manga arrasa) nos 2 e 5 , entrevista de
Roque Gonzalez ao autor no quarto número e artigo de Brocal Remohí sobre El Brazo de Dios.]

O título do post é correto. Não se trata duma HQ espanhola desenhada com estilo mangá, senão dum autêntico produto japonês editado e publicado nos anos noventa no seu próprio mercado, sempre arredio a publicar quadrinhos estrangeiros.
Marc Berna
(tradutor e intérprete do japonês) escreveu recentemente sobre esta HQ do quadrinista Jaime Brocal Remohí no blog Mangaland (link) como parte de suas investigações a respeito do trabalho dos desenhistas espanhóis no Japão. Entre os muitos dados recolhidos destaca o ter sido El Brazo de Dios a primeira história em quadrinhos realizada por um espanhol no Japão que se recopilou em formato tomo no ano 1994. Um detalhe importante, pois só outros dois quadrinhos realizados por artistas espanhóis para o mercado japonês receberam o mesmo tratamento depois desta história do mestre Brocal Remohí.
Este estranho acontecimento se deveu a iniciativas como a bolsa para desenhistas estrangeiros
Moorning Manga Fellowship da célebre editorial Kodansha, objeto de estudo de Marc Bernabé do que que nos oferece muitas outras reflexões nesta recopilação de seus posts (link). Creio que é um fato bastante conhecido o caso de alguns excelentes desenhistas europeus e norte-americanos como Vittorio Giardino, David Mazzuchelli ou Silvio Cadelo realizaram histórias para Kodansha durante a década dos noventa com um escasso sucesso econômico para a editorial. Mas o que eu, muito provavelmente, nunca saberei é a finalidade exata desta iniciativa japonesa: somente pretendiam produzir quadrinhos ocidentais diretamente para o mercado japonês? Quando se trata de quadrinhos e indústria japonesa sou demasiado receloso... Os dados oferecidos por Marc Bernabé sobre a publicação:
El Brazo de Dios foi publicado na revista de histórias em quadrin
hos Afternoon (Kodansha) durante 1993 e depois em tomo em 1994. Na Espanha se publicou em 1996 (Planeta de Agostini Comics).
A história em quadrinhos de Brocal Remohí é certamente muito semelhante os seus outros quadrinhos de fantasia, ainda que as referências aos mitos escandinavos e os elementos próprios da viking fantasy se substituíram por umas cenografia e divindades japonesas. Mas sem transformar a história num pretencioso jidaimono dos tantos que desde o Japão são exportados ao Ocidente com a etiqueta "Baseado fielmente em fatos históricos"; conquanto seus personagens também não se parecem aos heróis dos mangás Record of Lodoss War ou Rouroni Kenshin.
Que é então El Brazo de Dios?


Eu não conheço a opinião dos leitores japoneses nem a razão da sua segmentação dos quadrinhos (shōnen, jidaimono, shōjo, kodomo...) mas sim o Sword & Sorcery.
Além das suas multiples divisões, pretensamente estabelecidas por diferentes valores que só são variáveis introduzidas pelos autores, o gênero sword and sorcery aproveita muito diretamente a mitologia, qualquer mitologia e, específicamante, as estruturas destas mitologias com maior ou menor sucesso segundo as capacidades do autor
ou as limitações editoriais. De sorte que esta característica baseada em seu referente mitológico interior -o poder da repetição de esquemas narrativos e a funcionalidade de seus personagens- constituirá sempre a principal fortaleza e a maior debilidade:
Roy Thomas convertendo a Conan num mito pop, Esteban Maroto e Víctor de la Fuente mediante a recreação psicológica de intuições simbólicas em Dax el guerrero e Haxtur ou a inteligência no uso de referências religiosas e mitológicas própio de Jaime Brocal Remohí nesta HQ, são boas mostras dos diferentes modos de construir uma história de sword and sorcery.
No El Brazo de Dios o argumento se reduz à recuperação do herói protagonista Kami No Ude de seu reino e a vingança sobre o usurpador. Por isso que Brocal Remohí narra a história desde o regresso do herói e o acordar de seus poderes mágicos desvelando a linhagem de Kami No Ude e o motivo de sua vingança no reconhecimento dos seus aliados e inimigos. Pois a própria estrutura da história (popular, tradicional) volta desnecessária a representação direta do passado do herói, ainda que o desenhista projetou uma segunda parte, logo jamais realizada, para contar essa origem .
Este desenhista dominava a recreação de narrações míticas e lhe resultou fácil utilizar elementos da cosmogonía japonesa. Assim, o renascimento do herói e a explicação a seus poderes mágicos relacionam-se com o cenario japonês escolhido pelo autor, um Japão arcaico mas não histórico, ainda próximo a criação do mundo quando os deuses do céu e os seres das regiões subterrâneas protegiam a certos homens e manifestavam a sua presença inclusive como entes físicos.
Uma ambientação típica do gênero fantástico, mas
na que Brocal Remohí constrói seus personagens ao redor da hierogamía Céu-Terra do mito japonês de Izanagi e Izanami mostrando vários aspectos destes dois deuses ao mesmo tempo -um punto invulgar nos mangás fantásticos assimiláveis ao sword and sorcery-. Desde a mais singela equiparação da salvação do povo oprimido e a vitória dos apaixonados Kami No Ude e a princesa Yakumo frente o maligno usurpador Adorui e os monstros do Yomi com a união de Izanagi e Izanami na criação mitológica de Japão até o uso do fogo, as chamas ou a calor, como imagens da energia sexual transformada nos poderes mágicos do herói ou o sacrifício como via para a multiplicação da vida na imaxe da resurección de Kami No Ude numa greta na terra e a destruição final de seu inimigo nesse mesmo magma.
O melhor deste quadrinho é o modelo mitológico da Mãe Terra em seus aspectos terríveis, sexuais e agressivos já presente em outras obras de fantasia e terror de Brocal Remohí. Um tema muito comum no gênero sword and sorcery, mas resulta impossível imaginar o juízo dos leitores japoneses sobre o argumento ou os desenhos de Brocal Remohí: no entanto, ainda que alguns enfoques são tão dramáticos como os de qualquer mangá, os enquadres dos combates entre Kami e Adorui e as onomatopéias são numerosos, e a ação detém-se e acelera-se ao estilo japonês, vincular El Brazo de Dios aos quadrinhos japoneses é muito difícil.
Uma estranha experiência do mercado japonês dos quadrinhos. "Conan em Japão?", pensariam os japoneses. Enganaram-se.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Monográfico de ficção escura.

Título: (Nº 1) Cthulhu. Cómics y relatos de ficción oscura.
Autores: Ca
rlos Lamani, Elchinodelpelocrespo & Karles Sellés, Pepe Avilés, Raule & Sagar & Sergi, Pedro Aguayo & Serge Guinot & Rio, José Oliver & Bartolo Torres Prats, Raule & Meritxell, Alex Ogalla & Salvador Lopez, Manuel Mota, José Oliver & Luis NCT, Kosta.
Editorial: Diábolo Ediciones.
Data de publicação: dezembro 2007 .
[
Relato El atajo de José Mª Tamparillas ilustrado por Carlos Lamani e portfolio de Enrique Corominas. Formato 17x21, 66 paginas com capa branda, preto e branco mais duas histórias a cor. ]

Cthulhu é uma nova revista de histórias em quadrinhos de terror publicada pela Diábolo Ediciones. Ainda que em sua origem e com este mesmo título ja existiu outra revista (dois números publicados) editada pelo Grupo Zanzibar, que integram Manolo Mota, Alex Ogalla e Carlos Lamani, de igual tema mas menor número de páginas.
Uma aposta que devolve às livrarias especializadas o gênero de terror ou a ficção escura, fórmula escolhida polos criadores desta revista, no que destacaram tantos desenhistas espanhóis com seus quadrinhos para as revistas Creepy e Eerie de James Warren ou nas publicações de Toutaim do mercado espanhol durante os anos oitenta. O mesmo tema mas com maiores ambições, como explicam na nota editorial de seu primeiro número:

"A eleição do título de nossa modesta publicação não é superficial. Cthulhu foi uma invenção que revirou os alicerces da literatura de terror. O conto de medo lovecraftiano misturava ingredientes da melhor tradição do gênero com elementos importados da moderna fantasia e ciência ficção.
E esta é a nossa vocação: aunar passado e futuro, evocação e experimentação, nostalgia e assombro."
Cada número se dedicará a um autor ou tema no que se inspirarão as HQs, ainda que também se incluam outras diferentes. Assim, o universo do escritor Howard Philips Lovecraft foi o material escolhido neste primeiro número, incluindo mesmo uma adaptação do relato The picture in the house com desenho e roteiro de Lamani. Além desta e outras HQs de inspiração lovecraftiana também se incluíram a história titulada Jerome Delaquay, da que parece será uma série a cor sobre uma pesquisadora e caçadora de monstros desenhada por Sagar e escrita por Raule (roteirista da famosa Jazz Maynard) , e Meyer el brujo na que Manuel Mota narra a última noite de Gustav Meyrink de maneira visionária aunando as impressões do escritor sobre o futuro que aguardava à humanidade segundo as suas idéias sobre a História (Mitos de Walpurgis), a perseguição nazista que sofreu ao criticar a certos grupos esótericos e mais o yoga. Também é destacável a variedade de estilos dos desenhistas, alguns links:

Blog da revista Cth
ulhu.
Cthulhu en Diábolo
Ediciones.
Abandonad toda esperanza.
Daikoku's Regnum Aker.
El cómic de Cortijo Jurado. ( Do blog Un mundo en dibujos)
En lo profundo del bosque, Raule e Meritxell Rivas

Este mês sairá o segundo número onde notificam sua intenção de manter uma periodicidade de dois números anuais. Uma boa notícia que mostra a dificuldade de publicar revistas de histórias em quadrinhos.