Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Eternauta. Segunda parte.



Título: El Eternauta. Segunda parte.
Roteiro: HéctorGérman Oesterheld.
Desenhos: Solano López.
Editorial: Ediciones Record.
Data de publicação: outubro de 1994 (publicada pela primeira vez na revista em quadrinhos Skorpio no 1976).
[Formato 19'5x26, capa branda, preto e branco, 204 páginas.]

A começos dos anos oitenta Hector Germán Oesterheld era para mim um nome que acompanhava as histórias desenhadas por Hugo Pratt publicadas nas revistas em quadrinhos Hunter e Sargento Kirk. Desaparecidas estas revistas de western não recordaria seu nome até que em 1996 li este e outros Eternautas que encontrei numa livraria onde não costumavam vender HQs.
Provavelmente, comprei aquelas HQs do Eternauta porque reconheci ao personagem que aparecia ao final de Ciudad (Barreiro e Juan Giménez). Se na minha infância foron os desenhos de Pratt, durante alguns anos empregado de Oesterheld, o que lhe negou qualquer reconhecimento ao roteirista, já na adolescência foi uma de suas criações: Juan Salvo o Eternauta.
A minha experiência é muito parecida à da maioria de leitores espanhóis, talvez conscienstes da importância de Oesterheld na História dos quadrinhos graças a recentes reedições de algumas de suas obras, muito poucas ainda, e ao labor de divulgadores e críticos. Um exemplo da confluência destes dois atores do mundo das HQs seria a repercussão do terceiro número da revista de estudos sobre os quadrinhos Yellow Kid dedicado a Héctor Oesterheld no mesmo ano (2002) em que a editorial Planeta publicava Mort Cinder.
Até é possível que muitos aficionados o comprasemos depois de ter lido esse número especial com artigos de Pedro F. Navarro ou Rafa Marín. E nestes últimos dias se pode ler no blog Estudos e Crítica da historieta argentina -projeto de investigação 'Historietas realistas argentinas: Estudios y estado del campo' (Universidad Nacional de Cordoba)- um texto sobre as mudanças operadas nos personagens com respeito à primeira história e a representação social no El Eternauta. Segunda Parte. Um artigo de Roberto vom Sprecher em formato PDF (link) muito atraente, pois aplicam os estudos de Pierre Bordieu sobre as relações sociais e as estratégias implícitas às diferentes classes duma estrutura de dominação. Assim, o pertence a uma determinada classe social de Oesterheld como roteirista ganha relevância para o estudo dos aspectos históricos de sua abóbada ambiental e as particularidades materiais da realização de sua obra.
Se a primeira parte de El Eternauta narrava a luta dum grupo de sobreviventes contra a invasão extraterrena nas ruas de Buenos Aires, esta continuação translada aos protagonistas a uma paisagem debastada pelas bombas atômicas na mesma capital argentina do ano 2100 ou mais longe no futuro. E, ao invés que naquela primeira história onde era Juan Salvo quem se materializava como o Eternauta ("viajante da eternidade") ante a escrivaninha do roteirista, nesta ocasião será Oesterheld o encarregado de recordar-lhe a invasão a Juan Salvo:
Oesterheld, imerso como protagonista na própria narração, se apresentará no lar da família de Juan Salvo onde jogam, em companhia de sua filha Martita e sua esposa Elena, uma partida de cartas o Favalli, o Lucas e o Polsky, outros dos personagens da primeira parte. O roteirista referirá aos surpresos amigos a luta contra a invasão extraterrena de 1963 e como ele mesmo escreveu essas aventuras sem que lhe criam, pois é o ano 1959 . No entanto, convidam-no a jogar às cartas com eles numa cena muito parecida à da aparição da famosa 'nevasca mortal' da primeira parte, ainda que esta vez um grande resplendor se produz no exterior transladando no tempo a casa com Germán, Martita, Elena e Juan Salvo, que recupera a memória da invasão, e desvanecendo-se o Favalli, o Lucas e o Polski.
Até aqui, e despois dum breve interludio onde se descrevem os preparativos da família e seu novo amigo para explorar o exterior da casa, as atitudes dos personagens não são diferentes das da primeira história de El Eternauta. Obviando, é claro, o recurso literário da necessidade de recordar e a repentina claridivencia de Juan Salvo ao produzir-se a viagem no tempo. Ambos detalhes tão escatológicos como os pobladores das cavernas, humanos aos que Juan Salvo organizará para lutar contra os Zarpos, escravos semihumanos dos Mãos que, também, são servos dos Eles.
Mas além do papel redentor de Juan Salvo o Eternauta como um eleito, u
m salvador ou um ungido, que qualquer leitor como eu aprecia numa leitura singela, Roberto von Sprecher examina rasgos característicos da estrutura militar da agrupação política dos Montoneros infiltrados subjetivamente por Héctor Germán Oesterheld nesta segunda parte. Na que confronta a idéia do herói coletivo sempre presente na obra de Oesterheld, tão excepcionalmente utilizada na primeira parte, com os rasgos míticos dos líderes de Montoneros e sua ética do sacrifício do indivíduo em favor da coletividade. Ademais, de estabelecer paralelismos entre o desaparecimento do roteirista e os reproches de Germán, sua personalidade fictícia no relato, ao Eternauta por sacrificar a seus colegas de luta para triunfar contra o inimigo em várias ocasiões.
Já durante sua realização Solano López se mostrou em desacordo com estas mudanças da psicología do protagonista e a mensagem que as situações transmitiam. Conquanto é verdadeiro que o novo formato e as escassas mudanças de enfoque ou o excesso de diálogos, que narrativamente diminuiu o desenvolvimento da trama, permitiram-lhe desenvolver todas suas expressões faciais com uma maior dramaticidade e precisão. Ainda que com esta nova perspectiva O Eternauta. Segunda Parte adquire maior relevância, pois como relato não é uma digna continuação da primeira parte -recentemente publicada em Espanha por Norma editorial-.
A nova mirada do Eternauta nesta segunda parte:Como narrador-testemunha, quiçá, Germán reflita ante este novo Eternauta cuja inteligência só resulta equiparável à dos Eles o sentimento do próprio Oesterheld sobre sua nova situação na clandestinidade.

Links sobre o Eternauta:
Muestra 50/30
Biografia de Oesterheld en Muestra 50/30.
Historieteca
Eternauta
Fierro. El Eternauta-El atajo (quadrinho)


[Héctor Germán Oesterheld (1919-1977): escritor e roteirista nascido em Buenos Aires, criador de personagens e séries como Bull Rocket, Sargento Kirk (Hugo Pratt, José Muñoz, Solano López, Alberto Breccia...) Ticonderoga (Hugo Pratt), Ernie Pike (Hugo Pratt, Moliterni...) Che (Alberto y Enrique Breccia), Mort Cinder (Alberto Breccia), Watami (Moliterni), El Eternauta (com Solano López na primeira e na segunda parte e com Alberto Breccia numa versão da primeira de menor extensão), Sherlock Time (Alberto Breccia), Doutor Morgue (Alberto Breccia) entre outros muitos -ou entre outros muitos que, provavelmente, eu jamais conhecerei-. Junto a seu irmão criou a Editorial Frontera (1955-59) publicando ao começo novelas de alguns de seus personagens mais famosos e, depois, revistas de histórias em quadrinhos como Frontera e Hora Zero.
Como outro mais dos desaparecidos pela ditadura argentina foi seqüestrado em 1977.]
El Eternauta I Oesterheld & Solano López (1957).

El Eternauta I Oesterheld & Alberto Breccia (1969).

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Primeiro volume do horror quotidiano.

Título: Desde el abismo. Historias que miran nuestros horrores más profundos.
Autores: Max, David Rubín, Pere Joan, Sonia Pulido, Esteban Hernández, Brais Rodríguez, Luis NCT, Zoraida Zaro, Jorge Parras, Carlos Arrojo, Rubén Varillas, Juan Gargallo, Elfélix, Mik Baro, Geo Rôo.

Prólogo: Yorkshire (José María Carrasco, o editor).

Editorial: Viaje a Bizancio Ediciones.

Data de publicação: 15 de janeiro do 2008.

[
Álbum 19x28'5, capa branda com lapelas, 15
2 páginas em preto e branco. Longa entrevista ao desenhista Max, um conto de Luis NCT e dois artigos de Álvaro Pons e Rubén Varillas.]

Com tão só dois títulos nas livrarias e sem cumprir-se ainda um ano de sua criação, esta nova editorial já publicou trabalhos de dezasseis desenhistashistas. Como foi possível este acontecimento?

Eles explicam quem são:
Viaje a Bizancio Ediciones é uma editorial sevilhana nascida no ano 2007 com a intenção de abrir portas aos autores espanhóis e publicar aquelas obras irrenunciáveis que tudo leitor devesse ler. Queremos ser uma editorial de autor e de leitor: unir o talento do desvalorizado autor espanhol com o interesse dum leitor fam
into por ler algo novo, clássico e de vangarda.
Uma publicação especial composta por quadrinhos de diferente extensão e ilustrações construídas sobre a angústia humana. Um terror comum, familiar sempre, fatalmente oculto.
Mundos oníricos nos que seus personagens enfrentam o ordinário e desaparece
m, histórias cotidianas rompidas pela irrupção duma verdade irracional que nutrirá raízes familiares, traições sociais ou apetencias inconfessáveis. Como ocorre en Ciprés (Jorge Fernández), Una ocurrencia cualquiera (Juan Gargallo) e Migrañas (Elfélix).
No entanto, é a entrevista ao desenhista Max sobre suas ilustrações para este relato (link) do escritor Marco Denevi o aspecto que volta excepcional esta publicação e não a proximidade temática dumas HQs que bem poderiam-se publicar em qualquer revista de histórias em quadrinhos. Revistas nas que, por causa da pretenciosa objetividade, jamais se encontra uma autêntica conversa entre o suposto entrevistado e o verdadeiro entrevistador. Assim, será esta conversa mantida com o desenhista (Premio Nacional del Cómic 2007) o que converta Desde o abismo num objeto de colecionador no futuro.
Informação sobre os autores neste link na web da editorial, e um dado cuiroso: as direções de blogs e webs de todos os desenhistas, ilustradores e articulistas foram incluídas na HQ.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Uma historieta numa revista política.


Título: Huracan en Felicia.
Roteiro: Víctor Mora.
Desenhos: Alfonso Font.
Prólogo: Armonía Rodríguez.
Editorial: Ediciones de la Torre, coleção Papel Vivo (nº 15).
Data de publicação: maio de 1980.

[
Álbum 22x30, capa branda, 48 páginas, preto e branco. Caricaturas dos autores por Adolfo Usero, mais dois breves notas biográficas. Uma nota na última página assinala que ajudou a terminar a obra o desenhista Carlos Giménez.]


Tequila Bang foi uma história em quadrinhos criada por Víctor Mora e Alfonso Font para a revista La Calle, duas páginas semanais. Uma revista semanal que abordava qualquer tema da atualidade, especialmente sobre política, desde a esfera esquerdista própria de seus empregados e colaboradores. Um ponto especialmente meritório. Não só porque durante a época da sua publicação (1978-1982) fossem ainda de recente aplicação algumas importantes leis sobre a suspensão e seqüestro de publicações ou a legalização do PCE (Partido Comunista Español), senão devido a sua beligerancia contra a aceitação das consignas sugeridas desde os órgãos de poder a respeito da necessidade duma absoluta neutralidade por parte dos meios de comunicação nacionais no processo de democratização. Uma atitude que lhes impediu manter uns rendimentos publicitários conformes com sua difusão.
Na fim, a protagonista desta HQ não é alheia à ideologia esquerdista da revista na que se publicou originalmente como também não o são seus próprios criadores. Ainda que este aspecto se faz bem mais evidente na segunda de suas aventuras, Tequila Bang contra el Club Tenax (álbum ao que proximamente dedicarei seu próprio resumo).
Ao respecto desta edição da coleção Papel Vivo, e ante a impossibilidade de ler novamente algum exemplar de La Calle, parece-me relevante incluir a nota editorial impressa na contracapa deste álbum, mostra da profissionalidade dos seus editores:

Nota editorial
A presente edição do primeiro episódio de Tequila Bang, o mesmo que a do segundo (Papel Vivo, nº 11), reproduz integralmente as lâminas originais -incluindo as cabeceiras- tal e como apareceram em seu dia na Revista La Calle, respeitando assim todo o trabalho de roteirista e desenhistas, ainda que naturalmente com o formato e características da nossa coleção.

Huracan em Felicia é uma história realmente singela onde as funções das personagens e os diálogos arruinariam-se nos mesmos espaços comuns a tantos outros seriados de aventuras se não fora pelo tom de humor característico dos quadrinhos de Víctor Mora. Um roteirista que conseguiu escrever histórias em quadrinhos juvenis e inclusive histórias bélicas narradas desde uma visão adulta e sempre crítica.
A protagonista, Tequila Bang, uma mulher de vinte e quatro anos que trabalha como famosa modelo em Inglaterrra é, em realidade, a afilhada do lama supremo do Tibet. O líder dos monges guerreiros do vale do loto (budistas-leninistas) que adotaram a Tequila quando não era mais do que uma menina à que adestraram física e intelectualmente com o fim de defender aos oprimidos, a justiça e a liberdade.
Não se arrenegue mais o leitor actual, pois
ainda hoje esta HQ resulta entretida, e os seus personagems não se assemelham em excesso aos exagerados ideais dos filmes de Hollywood.
A ação transcorre em Felicia, um pequeno país de ficção na América do sul, justo depois dum terrível furacão (não se assustem este recurso contínua sendo um dos preferidos dos roteiristas e editores da Marvel e DC) . Ali, Tequila terá que ajudar a um jornalista norte-americano a reunir provas que demonstrem como os líderes do governo do ditador Ramirez comercian cos recursos humanitários estrangeiros recibindo grandes quantidades de dinheiro em contas suíças. Partidos democráticos ocultos na clandestinidade, um povo indígena submetido a uma cruel perseguição, interesses políticos internacionais, agentes governamentais que se sabem úteis para qualquer outro novo governo.... Uma história semelhante aos comics-books de Archie Godwin e John Byrne para o superherói Wolwerine (nº 17-23) .
Não são as melhores histórias em quadrinhos de Mora e Font mas possuem pequenos detalhes que fazem dela uma obra interessante. Como essa máscara grega acompanhada do lema 'Liberdade de expressão' que, segundo as datas das assinaturas do 3-78 da primeira página ao 25-8-78 da última, quiçá possua uma referência real na Espanha daqueles tempos.
Só encontrei um enlace sobre La Calle, não oferece dados concretos sobre o envolvimento dos quadrinhistas nese medio mas sim um bom resumo da história da própria revista: clique aqui.


Título: Contra el Club Tenax.
Roteiro: Víctor Mora.
Desenhos: Taller Premiá 79 (Alfonso Font, Adolfo Usero e Carlos Giménez).
Editorial: Ediciones de la Torre, coleção Papel Vivo (nº 11).
Data de publicação: novembro de 1979.

[Álbum com capa branda (22x30), 48 páginas, preto e branco. Prólogo do escritor Francisco Candel. Um texto de Víctor Mora, e caricaturas dos autores realiçadas por Adolfo Usero.]

Segunda é última das aventuras de Tequila Bang, número 11 da coleção Papel Vivo. Sua segunda aventura mas o primeiro álbum da heroína esquerdista publicado pela Ediciones de la Torre. Não desista, Huracan en Felicia era a primeira história de Tequila Bang, mas o álbum número 15 desta coleção, porque já existiu uma edição anterior dentro da descartada linha de álbums de histórias em quadrinhos desenvolvida na revista La Calle.
Contra el club Tenax é uma HQ bem mais interessante do que a exótica aventura democrática em Felicia. Com certeza, sua protagonista vai resistir à passagem pela Espanha de 1978 durante a transição da ditadura para o régime democrático. Mas antes, eu não posso deixar sem linkar um 'apontamento' sobre a autoria colétiva deste tebeo [link]--> Premiá y Grupo de la Floresta, los estudios Dados difíceis de serem compilados, aspectos importantes sobre este tópico da autoría coletiva.
O leitor atento já olhou para a ilustração da capa? Tequila co punho bem así... Quiçá não seja a melhor ficção criada por Víctor Mora e os três desenhistas, certamente esta BD nada mais é do que um título menor em seus currículos, e no entanto (eu crio) parece muito atraente para um leitor interessado na história espanhola. Os autores viviam mentres desenhabam, e histórias em quadrinhos juvenis tambén tenhem ideologia.



Sob o singelo argumento dum coletivo secreto que tenta perjudicar a entrada em vigor duma constitução espanhola, ao ponto de urdir um plano terrorista para atentar contra um representante do governo, os autores mostram a extensão internacional do territorio político espanhol naquele momento. Ao menos a sua expêriencia, sem maniqueismos, mostrando um contorno dramâtico de funcionários policiais e políticos progresistas e ultra-dereitistas. E grupos esquerdistas que, como os ultra-dereitistas, são manipulados por jogadores ocultos.
Um conjunto significativo de persoeiros foram retratados neste tebeo. O leitor atual achou interessante reconhecer suas faces. Ainda há outras personagens difíceis de se reconhecer, difíceis até mesmo para leitores espanhóis, na quinta vinheta da imagem acima aparece Alberto Royuelo (membro do grupo ultra-dereitista Falange e pistoleiro do ditador Franco) e seu saúdo romano adotado pelos movimentos fascistas.
Os autores viveram a Transição, existem outras histórias em quadrinhos que, talvez melhor, mostraram a brutalidades da ultra-dereita e a instrumentalização da violência na rua , mas eu não conheço outra aventura juvenil entre esses tebeos. -Os quatro autores também aparecem retratados junto a Tequila Bang numa manifestação pela democrácia na derradeira vinheta desta obra-