Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um comic espanhol de gênero.

Título: Waldemar Daninsky, el retorno del hombre lobo.
Roteiro: Paul Naschy e Javier Trujillo.
Desenho: Javier Trujillo.
Prólogo: Luis Alberto de Cuenca.
Editorial: Aleta ediciones, coleço Gran Aleta (selo Hegats).
Data de publicação: 2007.
[Álbum 22x31, 80 páginas a cor e capa dura, com entrevistas e notas biográficas de ambos autores.]

Uma das propostas mais singulares e esperançosas da historieta espanhola, tanto que podemos qualificá-la de inovadora, é este Waldemar Daninsky, el retorno del hombre lobo. De fato, se sois aficionados ao cinema de terror vos terá bastado com ver o título desta história em quadrinhos para recordar a clássica película de Paul Naschy.
Mesmo ainda que nunca tenhais visto uma película deste mestre do gênero reconhecereis perfeitamente o seu lobisomem. Pois o Javier Trujillo adapta fielmente a película que definiu a figura desta mítica criatura encarnada pelo ator e diretor Paul Naschy em El retorno del hombre lobo (1972). E que tenha sido uma das pequenas editoriais espanholas a que publicou esta adaptação resulta surpreedente, ainda que não tanto se temos em conta que precisamente Aleta é umha das que com mais força e inteligência está a apostar pelos autores nacionais: Joseba Basalo, o seu editor, deu um tombo ao modelo editorial imperante durante os últimos quinze anos, depois do desaparecimento das revistas de histórias em quadrinhos, recuperando para o mercado espanhol a historieta de gênero.
Dylan Dog, Martin Mystere, Dampyr... também heróis como Invencível de Kirman ou histórias em quadrinhos USA especiais, o Robocop de Frank Miller... Fantasia heróica italiana e francesa, alguns projetos maravilhosos como o Snakes and Ladders de Alan Moore e Eddie Campbell. E o melhor, histórias em quadrinhos de produção própria, historieta: quadrinhos nacionais que não tratam de afastar-se da história em quadrinhos de temáticas populares para credenciar-se simplesmente como comic de autor.
Trujillo, até faz bem pouco mais relacionado com o mundo da ilustração publicitária do que com os próprios quadrinhos, foi nominado como autor revelação do Expocomic de Madrid 2006 por sua série Los Mitos de Asturdeva (link). Só um ano depois, o prêmio do público à melhor obra espanhola lhe foi concedido o seu Waldemar Daninsky.
A história, basicamente a mesma que o filme, cujos principais atores resultam perfeitamente reconhecíveis, narra o confronto entre Waldemar Daninsky e a condesa Erzsébeth Bathory. Desde o ajusticiamiento nos Cárpatos de 1611 dos dois monstros, a vampira sangienta e o seu escravizado nobre o lobisomem Waldemar, até a luta final no noso tempo. Num romântico desenlace.
O caráter de oposição ao mundo cotidiano e a polaridade psíquica de Waldemar o lobisomem, com a que Naschy costuma representar como uma inclinação humana (o amor) se pode dirigir de umha forma elevada ou vil, fica refletida de maneira extraordinária. Inclusive, a meu parecer, este aspecto clássico de suas películas se intensifica ao ter sabido atualizar as figuras femininas com um maior erotismo e ambigüidade.
Eu creo que esse é o terror nos quadrinhos. Não há medo, susto nem surpresa, senão um fazer ver de uniões e distinções contínuas que acordam o erógeno no seio do estranho, o monstruoso. O amor na morte.
O desenho é digital, Trujillo diz na entrevista ter utilizado tableta gráfica e lápis óptico. Finalmente, o importante é o próprio artista, sua capacidade e sua visão da narrativa. Muito cuidada e eficaz, sem ralentizar a ação como costuma ocorrer em tantas adaptações em quadrinhos.
Vinhetas quebradas, seqüências tradicionais e belas páginas que acumulam imagens condensando informação numa abstração feita conjunto de modo semelhante ao volume da memória ou dos sonhos, segundo guardem relação com a ação ou com o fluxo da consciência dos protagonistas. O caso é que convertendo os quadros de texto na sombra do desenho e as vinhetas ao mesmo tempo estes últimos se voltam em vislumbre da palavra, conseguindo assim umha grande fluidez. Como se de um conto se tratasse, tal é a prosa de Paul Naschy.
Decerto, a escrita de Naschy foi causa de controvérsia, quiçá por não ler terror clássico, genuinamente gótico de Maturin ou Radcliffe. Mas um personagem romântico precisa uma linguagem que harmonize com sua figura do contrário resultaria paródico.

*Novo álbum de Waldemar [link]--> La bestia y la espada mágica
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Outros links:
Web Waldemar Daninsky.
Trailer Waldemar Daninsky.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Crónicas de la IIIª Guerra Mundial.

Título: Crónicas de la IIIª Guerra Mundial.
Desenho e roteiro:
Florenci Clavé.
Introdução: Iva.
Editorial: Ediciones de la Torre, coleção Papel Vivo (nº 28).
Data de publicação: junho de 1982.
[Álbum 22X32, capa branda, branco e preto e 48 Paginas.]


A coleção Papel Vivo (Ediciones de la Torre) publicou desde finais dos anos setenta até princípios de 1990 muitos dos mais reconhecidos autores dos quadrinhos espanhois desa época: Carlos Giménez, Alfonso Font, Luis García, Boix, Usero, Ventura y Nieto, Clavé, Tha e T. P. Bigart... De fato, algumas das suas obras só se podem ler nessas edições. Ainda que também acontece que, lentamente mas com grande esmero, a filial espanhola da Glenat vem reeditando a obra destes autores e, inclusive, publicando os seus novos títulos.

Graças a esse labor de recuperação eu por fim puidem ler El cartero siempre llama dos veces (adaptação da novela homônima de James M. Cain) e Corre hombre, corre (tamén adaptación duma novela de Chester Himes) de Florenci Clavé, publicadas na coleção Viñetas Negras. E, não obstante, ao ter desenvolvido este desenhista a maior parte da sua obra em França mal consegui ler, além destas três histórias, um par mais de relatos curtos en diversas revistas de quadrinhos. Por isso considéro-me afortunado de ter lido Crónicas de la IIIª Guerra Mundial, já que devido ao caracter episódico e a ferocidade propia do discurso deste autor a sua reedição parece improvável.
Pode ser que com tempo voltemos a ler Lhes Dossiers du Fantastique ou La Banda de Bonnot (publicado na Espanha dentro da coleção Vilan), já que o pertencer ao género fantástico o primeiro, e a recreação histórica e biográfica do segundo assegura-se o solapamento das convicções ideológicas de Clavé. Um artista que militou politicamente como cartelista e caricaturista no movimento maoista europeu além dos seus desenhos sob o seudónimo de Clajov para Action!, o jornal das barricadas durante o Maio francês.
Com esses antecedentes resulta compreensíveis que a seu regresso a Espanha -depois de ter publicado en Pilote, Circus, Dargaud, Glenat, etc- entrasse a trabalhar no Papus (link), a revista de humor gráfico "Satírica e Neurasténica" contra a que atentou mediante un pacote explosivo (link) o grupo armado de ideologia fascista Triple A (Alianza Apostólica Anticomunista) no 20 de setembro de 1977, provocando uma morte e mais de dez feridos.
E, precisamente, no Papus foi onde apareceram pela primeira vez as histórias que integram o álbum: um total de 39, sem título, narrações independentes e duma única página a maioria delas, exceto as número 10, 20 e 36, desembrulhadas mediante três. Nelas, sempre fora de toda regra moral ou artística, Clavé não persuade senão que tenta, e consegue mostrar, crio eu, as fórmulas e mecanismos invisíveis que conseguiram fazer da guerra a finalidade primordial dum subcojunto dominante que regula em seu próprio benefício cada um dos fatores que moldam o grupo social, mediante o controle das informações e a criação de umas necessidades concretas que infundir no indivíduo.
A indústria da guerra, a hecatombe ecológica, a manipulação informativa, a necessidade de desobediência, os enfermiços processos mentais da autoridade irracional, os intelectuais alienados... Todos estes temas são ferramentas que Clavé utilizou para demonstrar-lhe ao leitor que a guerra permanece porque é útil para a manutenção duma estrutura de dominação hierárquica. E, sobretudo, quando o conflito armado cessa a guerra ainda contínua presente no que tão só supõe uma mudança de intensidade.
Não há poesia, não existe a beleza na guerra. Onde tudo é manipulação e não fica espaço para nenhuma configuração simétrica. Os ambientes destas historietas não são como os que pude ver noutros de seus trabalhos como Link el Chamarilero, Alias Lazaro ou Un Tiempo del Fuhrer, e creio que sempre deveu ser assim este desenhista: capaz de mudar de estilo 'relaxando-se' em linha continua e clara ou contendendo com os contrastes preto e branco.

"A Historieta -os quadrinhos- são um meio de comunicação onde se unem, em difícil síntese a arte da imagem e o imenso poder de representação da palavra. O desenho, a pintura, a narrativa, a linguagem cinematográfica inclusive, conformam um meio de expressão que, ainda que foi utilizado como arte menor para menores, pode ser -já o está sendo- uma linguagem imensa e independente com o que as pessoas nos comuniquemos as experiências e os sentimentos mais complexos."
Papel Vivo. Sociedade e aventura na nona arte.

Esta era a apresentação de cada álbum, sempre a mesma proposta. É lamentável que hoje as grandes editoriais espanholas não tenham sabido realizar nem uma sozinha vez um convite parecido para seus leitores. Pelo menos os artistas dos quadrinhos sim o fizeram e ainda conservam muitos deles as mesmas ou parecidas intenções.


[Florenci Clavé (1936-1998): desenhista espanhol que começou trabalhar em Seleções Ilustradas, a agência de quadrinhos de Josep Toutain, que sortia de histórias a Inglaterra e, anos despois, também aos Estados Unidos. Em l´infantil realizou Lhes aventures do Savi de Vallvidriere, junto a série Ramón de Iva, uma das histórias em quadrinhos que se publicaram em catalão durante a ditadura franquista. Desenhou a maioria da sua obra para França, ainda que uma parte dela publicouse de forma dispersa em álbums e revistas espanholas.]

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