Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O mangá de Brocal Remohí.

Título: El Brazo de Dios (Kami no ude na edição japonesa).
Desenho e roteiro: Jaime Brocal Remohí.
Editorial: Planeta de Agostini Comics (a editorial japonesa Kodansha na revista de histórias en quadrinhos Afternoon).
Data de publicação: 1996 na Espanha (1993 e 1994 no Japão).
[Formato comic-book 17x26, cinco números com 56 páginas cada um, enquete editorial nos números 2 e 4, seção de anúncios (Oriental connection) nos 2 e 5, seção de fanzines sobre manga (Manga arrasa) nos 2 e 5 , entrevista de
Roque Gonzalez ao autor no quarto número e artigo de Brocal Remohí sobre El Brazo de Dios.]

O título do post é correto. Não se trata duma HQ espanhola desenhada com estilo mangá, senão dum autêntico produto japonês editado e publicado nos anos noventa no seu próprio mercado, sempre arredio a publicar quadrinhos estrangeiros.
Marc Berna
(tradutor e intérprete do japonês) escreveu recentemente sobre esta HQ do quadrinista Jaime Brocal Remohí no blog Mangaland (link) como parte de suas investigações a respeito do trabalho dos desenhistas espanhóis no Japão. Entre os muitos dados recolhidos destaca o ter sido El Brazo de Dios a primeira história em quadrinhos realizada por um espanhol no Japão que se recopilou em formato tomo no ano 1994. Um detalhe importante, pois só outros dois quadrinhos realizados por artistas espanhóis para o mercado japonês receberam o mesmo tratamento depois desta história do mestre Brocal Remohí.
Este estranho acontecimento se deveu a iniciativas como a bolsa para desenhistas estrangeiros
Moorning Manga Fellowship da célebre editorial Kodansha, objeto de estudo de Marc Bernabé do que que nos oferece muitas outras reflexões nesta recopilação de seus posts (link). Creio que é um fato bastante conhecido o caso de alguns excelentes desenhistas europeus e norte-americanos como Vittorio Giardino, David Mazzuchelli ou Silvio Cadelo realizaram histórias para Kodansha durante a década dos noventa com um escasso sucesso econômico para a editorial. Mas o que eu, muito provavelmente, nunca saberei é a finalidade exata desta iniciativa japonesa: somente pretendiam produzir quadrinhos ocidentais diretamente para o mercado japonês? Quando se trata de quadrinhos e indústria japonesa sou demasiado receloso... Os dados oferecidos por Marc Bernabé sobre a publicação:
El Brazo de Dios foi publicado na revista de histórias em quadrin
hos Afternoon (Kodansha) durante 1993 e depois em tomo em 1994. Na Espanha se publicou em 1996 (Planeta de Agostini Comics).
A história em quadrinhos de Brocal Remohí é certamente muito semelhante os seus outros quadrinhos de fantasia, ainda que as referências aos mitos escandinavos e os elementos próprios da viking fantasy se substituíram por umas cenografia e divindades japonesas. Mas sem transformar a história num pretencioso jidaimono dos tantos que desde o Japão são exportados ao Ocidente com a etiqueta "Baseado fielmente em fatos históricos"; conquanto seus personagens também não se parecem aos heróis dos mangás Record of Lodoss War ou Rouroni Kenshin.
Que é então El Brazo de Dios?


Eu não conheço a opinião dos leitores japoneses nem a razão da sua segmentação dos quadrinhos (shōnen, jidaimono, shōjo, kodomo...) mas sim o Sword & Sorcery.
Além das suas multiples divisões, pretensamente estabelecidas por diferentes valores que só são variáveis introduzidas pelos autores, o gênero sword and sorcery aproveita muito diretamente a mitologia, qualquer mitologia e, específicamante, as estruturas destas mitologias com maior ou menor sucesso segundo as capacidades do autor
ou as limitações editoriais. De sorte que esta característica baseada em seu referente mitológico interior -o poder da repetição de esquemas narrativos e a funcionalidade de seus personagens- constituirá sempre a principal fortaleza e a maior debilidade:
Roy Thomas convertendo a Conan num mito pop, Esteban Maroto e Víctor de la Fuente mediante a recreação psicológica de intuições simbólicas em Dax el guerrero e Haxtur ou a inteligência no uso de referências religiosas e mitológicas própio de Jaime Brocal Remohí nesta HQ, são boas mostras dos diferentes modos de construir uma história de sword and sorcery.
No El Brazo de Dios o argumento se reduz à recuperação do herói protagonista Kami No Ude de seu reino e a vingança sobre o usurpador. Por isso que Brocal Remohí narra a história desde o regresso do herói e o acordar de seus poderes mágicos desvelando a linhagem de Kami No Ude e o motivo de sua vingança no reconhecimento dos seus aliados e inimigos. Pois a própria estrutura da história (popular, tradicional) volta desnecessária a representação direta do passado do herói, ainda que o desenhista projetou uma segunda parte, logo jamais realizada, para contar essa origem .
Este desenhista dominava a recreação de narrações míticas e lhe resultou fácil utilizar elementos da cosmogonía japonesa. Assim, o renascimento do herói e a explicação a seus poderes mágicos relacionam-se com o cenario japonês escolhido pelo autor, um Japão arcaico mas não histórico, ainda próximo a criação do mundo quando os deuses do céu e os seres das regiões subterrâneas protegiam a certos homens e manifestavam a sua presença inclusive como entes físicos.
Uma ambientação típica do gênero fantástico, mas
na que Brocal Remohí constrói seus personagens ao redor da hierogamía Céu-Terra do mito japonês de Izanagi e Izanami mostrando vários aspectos destes dois deuses ao mesmo tempo -um punto invulgar nos mangás fantásticos assimiláveis ao sword and sorcery-. Desde a mais singela equiparação da salvação do povo oprimido e a vitória dos apaixonados Kami No Ude e a princesa Yakumo frente o maligno usurpador Adorui e os monstros do Yomi com a união de Izanagi e Izanami na criação mitológica de Japão até o uso do fogo, as chamas ou a calor, como imagens da energia sexual transformada nos poderes mágicos do herói ou o sacrifício como via para a multiplicação da vida na imaxe da resurección de Kami No Ude numa greta na terra e a destruição final de seu inimigo nesse mesmo magma.
O melhor deste quadrinho é o modelo mitológico da Mãe Terra em seus aspectos terríveis, sexuais e agressivos já presente em outras obras de fantasia e terror de Brocal Remohí. Um tema muito comum no gênero sword and sorcery, mas resulta impossível imaginar o juízo dos leitores japoneses sobre o argumento ou os desenhos de Brocal Remohí: no entanto, ainda que alguns enfoques são tão dramáticos como os de qualquer mangá, os enquadres dos combates entre Kami e Adorui e as onomatopéias são numerosos, e a ação detém-se e acelera-se ao estilo japonês, vincular El Brazo de Dios aos quadrinhos japoneses é muito difícil.
Uma estranha experiência do mercado japonês dos quadrinhos. "Conan em Japão?", pensariam os japoneses. Enganaram-se.

2 comentários:

Bongop disse...

Adoro Brocal!
Tenho dito!

Ismael Fancito. disse...

Eu também sou um fã de Brocal.