Assim devia ser a viagem?
Quero servirme deste blog para aprender português e divertirme enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (mais algum atual). Seguramente dentro dum ou dois anos rirei de todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispõem de tempo, graças.

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Martínez el facha.

A História exibe a seus pequenos monstros depois que decorreu tempo suficiente da extinção das Grandes Bestas da Humanidade. E o faz depressa, pois ainda ninguém sabe se a extinção será felizmente irrepable ou os filhos da Besta encontrarão algum método sinistro de devolver-lhe a vida a seu protetor.
Que tempo dispomos até que a próxima Grande peste caia em cima da História?

No final do 'franquismo' -ditadura franquista- produziu-se em Espanha um enorme crescimento da imprensa humorística com muitíssimas revistas de histórias em quadrinhos de humor azedo
porém só El Jueves publicas-se atualmente. Mas por sua vez um personagem daquele primeiro número de 1977 aparece ainda nas páginas desta revista, o seu nome é Martínez el facha.
Martínez ( o do grande nariz) foi um soldado do bando fascista do ditador espanhol o General Francisco Franco e o protótipo do 'facha' -palavra utilizada para referir-se à pessoa de ideologia política reaccionária- sempre em absurdos negócios ou missões unidas a acontecimentos da atualidade espanhola e internacional. Junto ao senhor Morales, Adolfito, o sacerdote argentino Bocquerini e outros muitos personagens característicos de diferentes graus do espectro reaccionário espanhol, Martínez fracassa na sua defesa do velho ordem moral católico frente as mudanças sociais.
Kim, desenhista e criador desta HQ, utiliza todos os recursos possíveis: lemas políticos nos títulos de seus quadrinhos como o "¡España va bien!" do expresidente Jose María Aznar ou até introduzir personalidades reais e transladar seus personagens a os conflitos internacionais, grandes acontecimentos políticos, onde tudo é criticado convertendo cada nova recopilação de suas aventuras semanais numa crônica de fatos históricos e evolução dos costumes de sua sociedade.
Nesta história em quadrinhos de 1998 Martínez, o sacerdote Bocquerini e o senhor Morales disfarçado de Papai Noel, viajam a Inglaterra para alegrar o natal ao ditador chileno Pinochet, detido depois da reclamação de extradição por crimes contra a humanidade feita pelos órgãos de justiça espanhóis (o juiz Garzón). O conhecimento dos fatos históricos aumenta o valor da leitura desta obra de Kim ainda dez anos depois. Uma guia histórica surpreendente.
Links:
Martínez el facha e Kim.
El Jueves.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

O mangá de Brocal Remohí.

Título: El Brazo de Dios (Kami no ude na edição japonesa).
Desenho e roteiro: Jaime Brocal Remohí.
Editorial: Planeta de Agostini Comics (a editorial japonesa Kodansha na revista de histórias en quadrinhos Afternoon).
Data de publicação: 1996 na Espanha (1993 e 1994 no Japão).
[Formato comic-book 17x26, cinco números com 56 páginas cada um, enquete editorial nos números 2 e 4, seção de anúncios (Oriental connection) nos 2 e 5, seção de fanzines sobre manga (Manga arrasa) nos 2 e 5 , entrevista de
Roque Gonzalez ao autor no quarto número e artigo de Brocal Remohí sobre El Brazo de Dios.]

O título do post é correto. Não se trata duma HQ espanhola desenhada com estilo mangá, senão dum autêntico produto japonês editado e publicado nos anos noventa no seu próprio mercado, sempre arredio a publicar quadrinhos estrangeiros.
Marc Berna
(tradutor e intérprete do japonês) escreveu recentemente sobre esta HQ do quadrinista Jaime Brocal Remohí no blog Mangaland (link) como parte de suas investigações a respeito do trabalho dos desenhistas espanhóis no Japão. Entre os muitos dados recolhidos destaca o ter sido El Brazo de Dios a primeira história em quadrinhos realizada por um espanhol no Japão que se recopilou em formato tomo no ano 1994. Um detalhe importante, pois só outros dois quadrinhos realizados por artistas espanhóis para o mercado japonês receberam o mesmo tratamento depois desta história do mestre Brocal Remohí.
Este estranho acontecimento se deveu a iniciativas como a bolsa para desenhistas estrangeiros
Moorning Manga Fellowship da célebre editorial Kodansha, objeto de estudo de Marc Bernabé do que que nos oferece muitas outras reflexões nesta recopilação de seus posts (link). Creio que é um fato bastante conhecido o caso de alguns excelentes desenhistas europeus e norte-americanos como Vittorio Giardino, David Mazzuchelli ou Silvio Cadelo realizaram histórias para Kodansha durante a década dos noventa com um escasso sucesso econômico para a editorial. Mas o que eu, muito provavelmente, nunca saberei é a finalidade exata desta iniciativa japonesa: somente pretendiam produzir quadrinhos ocidentais diretamente para o mercado japonês? Quando se trata de quadrinhos e indústria japonesa sou demasiado receloso... Os dados oferecidos por Marc Bernabé sobre a publicação:
El Brazo de Dios foi publicado na revista de histórias em quadrin
hos Afternoon (Kodansha) durante 1993 e depois em tomo em 1994. Na Espanha se publicou em 1996 (Planeta de Agostini Comics).
A história em quadrinhos de Brocal Remohí é certamente muito semelhante os seus outros quadrinhos de fantasia, ainda que as referências aos mitos escandinavos e os elementos próprios da viking fantasy se substituíram por umas cenografia e divindades japonesas. Mas sem transformar a história num pretencioso jidaimono dos tantos que desde o Japão são exportados ao Ocidente com a etiqueta "Baseado fielmente em fatos históricos"; conquanto seus personagens também não se parecem aos heróis dos mangás Record of Lodoss War ou Rouroni Kenshin.
Que é então El Brazo de Dios?


Eu não conheço a opinião dos leitores japoneses nem a razão da sua segmentação dos quadrinhos (shōnen, jidaimono, shōjo, kodomo...) mas sim o Sword & Sorcery.
Além das suas multiples divisões, pretensamente estabelecidas por diferentes valores que só são variáveis introduzidas pelos autores, o gênero sword and sorcery aproveita muito diretamente a mitologia, qualquer mitologia e, específicamante, as estruturas destas mitologias com maior ou menor sucesso segundo as capacidades do autor
ou as limitações editoriais. De sorte que esta característica baseada em seu referente mitológico interior -o poder da repetição de esquemas narrativos e a funcionalidade de seus personagens- constituirá sempre a principal fortaleza e a maior debilidade:
Roy Thomas convertendo a Conan num mito pop, Esteban Maroto e Víctor de la Fuente mediante a recreação psicológica de intuições simbólicas em Dax el guerrero e Haxtur ou a inteligência no uso de referências religiosas e mitológicas própio de Jaime Brocal Remohí nesta HQ, são boas mostras dos diferentes modos de construir uma história de sword and sorcery.
No El Brazo de Dios o argumento se reduz à recuperação do herói protagonista Kami No Ude de seu reino e a vingança sobre o usurpador. Por isso que Brocal Remohí narra a história desde o regresso do herói e o acordar de seus poderes mágicos desvelando a linhagem de Kami No Ude e o motivo de sua vingança no reconhecimento dos seus aliados e inimigos. Pois a própria estrutura da história (popular, tradicional) volta desnecessária a representação direta do passado do herói, ainda que o desenhista projetou uma segunda parte, logo jamais realizada, para contar essa origem .
Este desenhista dominava a recreação de narrações míticas e lhe resultou fácil utilizar elementos da cosmogonía japonesa. Assim, o renascimento do herói e a explicação a seus poderes mágicos relacionam-se com o cenario japonês escolhido pelo autor, um Japão arcaico mas não histórico, ainda próximo a criação do mundo quando os deuses do céu e os seres das regiões subterrâneas protegiam a certos homens e manifestavam a sua presença inclusive como entes físicos.
Uma ambientação típica do gênero fantástico, mas
na que Brocal Remohí constrói seus personagens ao redor da hierogamía Céu-Terra do mito japonês de Izanagi e Izanami mostrando vários aspectos destes dois deuses ao mesmo tempo -um punto invulgar nos mangás fantásticos assimiláveis ao sword and sorcery-. Desde a mais singela equiparação da salvação do povo oprimido e a vitória dos apaixonados Kami No Ude e a princesa Yakumo frente o maligno usurpador Adorui e os monstros do Yomi com a união de Izanagi e Izanami na criação mitológica de Japão até o uso do fogo, as chamas ou a calor, como imagens da energia sexual transformada nos poderes mágicos do herói ou o sacrifício como via para a multiplicação da vida na imaxe da resurección de Kami No Ude numa greta na terra e a destruição final de seu inimigo nesse mesmo magma.
O melhor deste quadrinho é o modelo mitológico da Mãe Terra em seus aspectos terríveis, sexuais e agressivos já presente em outras obras de fantasia e terror de Brocal Remohí. Um tema muito comum no gênero sword and sorcery, mas resulta impossível imaginar o juízo dos leitores japoneses sobre o argumento ou os desenhos de Brocal Remohí: no entanto, ainda que alguns enfoques são tão dramáticos como os de qualquer mangá, os enquadres dos combates entre Kami e Adorui e as onomatopéias são numerosos, e a ação detém-se e acelera-se ao estilo japonês, vincular El Brazo de Dios aos quadrinhos japoneses é muito difícil.
Uma estranha experiência do mercado japonês dos quadrinhos. "Conan em Japão?", pensariam os japoneses. Enganaram-se.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Monográfico de ficção escura.

Título: (Nº 1) Cthulhu. Cómics y relatos de ficción oscura.
Autores: Ca
rlos Lamani, Elchinodelpelocrespo & Karles Sellés, Pepe Avilés, Raule & Sagar & Sergi, Pedro Aguayo & Serge Guinot & Rio, José Oliver & Bartolo Torres Prats, Raule & Meritxell, Alex Ogalla & Salvador Lopez, Manuel Mota, José Oliver & Luis NCT, Kosta.
Editorial: Diábolo Ediciones.
Data de publicação: dezembro 2007 .
[
Relato El atajo de José Mª Tamparillas ilustrado por Carlos Lamani e portfolio de Enrique Corominas. Formato 17x21, 66 paginas com capa branda, preto e branco mais duas histórias a cor. ]

Cthulhu é uma nova revista de histórias em quadrinhos de terror publicada pela Diábolo Ediciones. Ainda que em sua origem e com este mesmo título ja existiu outra revista (dois números publicados) editada pelo Grupo Zanzibar, que integram Manolo Mota, Alex Ogalla e Carlos Lamani, de igual tema mas menor número de páginas.
Uma aposta que devolve às livrarias especializadas o gênero de terror ou a ficção escura, fórmula escolhida polos criadores desta revista, no que destacaram tantos desenhistas espanhóis com seus quadrinhos para as revistas Creepy e Eerie de James Warren ou nas publicações de Toutaim do mercado espanhol durante os anos oitenta. O mesmo tema mas com maiores ambições, como explicam na nota editorial de seu primeiro número:

"A eleição do título de nossa modesta publicação não é superficial. Cthulhu foi uma invenção que revirou os alicerces da literatura de terror. O conto de medo lovecraftiano misturava ingredientes da melhor tradição do gênero com elementos importados da moderna fantasia e ciência ficção.
E esta é a nossa vocação: aunar passado e futuro, evocação e experimentação, nostalgia e assombro."
Cada número se dedicará a um autor ou tema no que se inspirarão as HQs, ainda que também se incluam outras diferentes. Assim, o universo do escritor Howard Philips Lovecraft foi o material escolhido neste primeiro número, incluindo mesmo uma adaptação do relato The picture in the house com desenho e roteiro de Lamani. Além desta e outras HQs de inspiração lovecraftiana também se incluíram a história titulada Jerome Delaquay, da que parece será uma série a cor sobre uma pesquisadora e caçadora de monstros desenhada por Sagar e escrita por Raule (roteirista da famosa Jazz Maynard) , e Meyer el brujo na que Manuel Mota narra a última noite de Gustav Meyrink de maneira visionária aunando as impressões do escritor sobre o futuro que aguardava à humanidade segundo as suas idéias sobre a História (Mitos de Walpurgis), a perseguição nazista que sofreu ao criticar a certos grupos esótericos e mais o yoga. Também é destacável a variedade de estilos dos desenhistas, alguns links:

Blog da revista Cth
ulhu.
Cthulhu en Diábolo
Ediciones.
Abandonad toda esperanza.
Daikoku's Regnum Aker.
El cómic de Cortijo Jurado. ( Do blog Un mundo en dibujos)

Este mês sairá o segundo número onde notificam sua intenção de manter uma periodicidade de dois números anuais. Uma boa notícia que mostra a dificuldade de publicar revistas de histórias em quadrinhos.

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

O Eternauta. Segunda parte.

Título: El Eternauta. Segunda parte.
Roteiro: HéctorGérman Oesterheld.
Desenhos: Solano López.
Editorial: Ediciones Record.
Data de publicação: outubro de 1994 (publicada pela primeira vez na revista em quadrinhos Skorpio no 1976).
[Formato 19'5x26, capa branda, preto e branco, 204 páginas.]

A começos dos anos oitenta Hector Germán Oesterheld era para mim um nome que acompanhava as histórias desenhadas por Hugo Pratt publicadas nas revistas em quadrinhos Hunter e Sargento Kirk. Desaparecidas estas revistas de western não recordaria seu nome até que em 1996 li este e outros Eternautas que encontrei numa livraria onde não costumavam vender HQs.
Provavelmente, comprei aquelas HQs do Eternauta porque reconheci ao personagem que aparecia ao final de Ciudad (Barreiro e Juan Giménez). Se na minha infância foron os desenhos de Pratt, durante
alguns anos empregado de Oesterheld, o que lhe negou qualquer reconhecimento ao roteirista, já na adolescência foi uma de suas criações: Juan Salvo o Eternauta.
A minha experiência é muito parecida à da maioria de leitores espanhóis, talvez conscienstes da importância de Oesterheld na História dos quadrinhos graças a recente
s reedições de algumas de suas obras, muito poucas ainda, e ao labor de divulgadores e críticos. Um exemplo da confluência destes dois atores do mundo das HQs seria a repercussão do terceiro número da revista de estudos sobre os quadrinhos Yellow Kid dedicado a Héctor Oesterheld no mesmo ano (2002) em que a editorial Planeta publicava Mort Cinder.
Até é possível que muitos aficionados o comprasemos depois de ter lido
esse número especial com artigos de Pedro F. Navarro ou Rafa Marín. E nestes últimos dias se pode ler no blog Estudos e Crítica da historieta argentina -projeto de investigação 'Historietas realistas argentinas: Estudios y estado del campo' (Universidad Nacional de Cordoba)- um texto sobre as mudanças operadas nos personagens com respeito à primeira história e a representação social no El Eternauta. Segunda Parte. Um artigo de Roberto vom Sprecher em formato PDF (link) muito atraente, pois aplicam os estudos de Pierre Bordieu sobre as relações sociais e as estratégias implícitas às diferentes classes duma estrutura de dominação. Assim, o pertence a uma determinada classe social de Oesterheld como roteirista ganha relevância para o estudo dos aspectos históricos de sua abóbada ambiental e as particularidades materiais da realização de sua obra.
Se a primeira parte de El Eternauta narrava a luta dum grupo de sobreviventes contra a invasão extraterrena nas ruas de Buenos Aires, esta continuação translada aos protagonistas a uma paisagem debastada pelas bombas atômicas na mesma capital argentina do ano 2100 ou mais longe no futuro. E, ao invés que naquela primeira história onde era Juan Salvo quem se materializava como o Eternauta (
"viajante da eternidade") ante a escrivaninha do roteirista, nesta ocasião será Oesterheld o encarregado de recordar-lhe a invasão a Juan Salvo:
Oesterheld, imerso como protagonista na própria narração, se apresentará no lar da família de Juan Salvo onde jogam, em companhia de sua filha Martita e sua esposa Elena, uma partida de cartas o Favalli, o Lucas e o Polsky, outros dos personagens da primeira parte. O roteirista referirá aos surpresos amigos a luta contra a invasão extraterrena de 1963 e como ele mesmo escreveu essas aventuras sem que lhe criam, pois é o ano 1959 . No entanto, convidam-no a jogar às cartas com eles numa cena muito parecida à da aparição da famosa 'nevasca mortal' da primeira parte, ainda que esta vez um grande resplendor se produz no exterior transladando no tempo a casa com Germán, Martita, Elena e Juan Salvo, que recupera a memória da invasão, e desvanecendo-se o Favalli, o Lucas e o Polski.
Até aqui, e despois dum breve interludio onde se descrevem os preparativos da família e seu novo amigo para explorar o exterior da casa, as atitudes dos personagens não são diferentes das da primeira história de El Eternauta. Obviando, é claro, o recurso literário da necessidade de recordar e a repentina claridivencia de Juan Salvo ao produzir-se a viagem no tempo. Ambos detalhes tão escatológicos como os pobladores das cavernas, humanos aos que Juan Salvo organizará para lutar contra os Zarpos, escravos semihumanos dos Mãos que, também, são servos dos Eles.
Mas além do papel redentor de Juan Salvo o Eternauta como um eleito, um salvador ou um ungido, que qualquer leitor como eu aprecia numa leitura singela, Roberto von Sprecher examina rasgos característicos da estrutura militar da agrupação política dos Montoneros infiltrados subjetivamente por Héctor Germán Oesterheld
nesta segunda parte. Na que confronta a idéia do herói coletivo sempre presente na obra de Oesterheld, tão excepcionalmente utilizada na primeira parte, com os rasgos míticos dos líderes de Montoneros e sua ética do sacrifício do indivíduo em favor da coletividade. Ademais, de estabelecer paralelismos entre o desaparecimento do roteirista e os reproches de Germán, sua personalidade fictícia no relato, ao Eternauta por sacrificar a seus colegas de luta para triunfar contra o inimigo em várias ocasiões.
Já durante sua realização Solano López se mostrou em desacordo com estas mudanças da psicología do protagonista e a mensagem que as situações transmitiam. Conquanto é verdadeiro que o novo formato e as escassas mudanças de enfoque ou o excesso de diálogos, que narrativamente diminuiu o desenvolvimento da trama, permitiram-lhe desenvolver todas suas expressões faciais com uma maior dramaticidade e precisão. Ainda que com esta nova perspectiva O Eternauta. Segunda Parte adquire maior relevância, pois como relato não é uma digna continuação da primeira parte -recentemente publicada em Espanha por Norma editorial-.
A nova mirada do Eternauta nesta segunda parte:
Como narrador-testemunha, quiçá, Germán reflita ante este novo Eternauta cuja inteligência só resulta equiparável à dos Eles o sentimento do próprio Oesterheld sobre sua nova situação na clandestinidade.

Links sobre o Eternauta:
Muestra 50/30
Biografia de Oesterheld en Muestra 50/30.
Historieteca
Eternauta
Fierro. El Eternauta-El atajo (quadrinho)

[Héctor Germán Oesterheld (1919-1977): escritor e roteirista nascido em Buenos Aires, criador de personagens e séries como Bull Rocket, Sargento Kirk (Hugo Pratt, José Muñoz, Solano López, Alberto Breccia...) Ticonderoga (Hugo Pratt), Ernie Pike (Hugo Pratt, Moliterni...) Che (Alberto y Enrique Breccia), Mort Cinder (Alberto Breccia), Watami (Moliterni), El Eternauta (com Solano López na primeira e na segunda parte e com Alberto Breccia numa versão da primeira de menor extensão), Sherlock Time (Alberto Breccia), Doutor Morgue (Alberto Breccia) entre outros muitos -ou entre outros muitos que, provavelmente, eu jamais conhecerei-. Junto a seu irmão criou a Editorial Frontera (1955-59) publicando ao começo novelas de alguns de seus personagens mais famosos e, depois, revistas de histórias em quadrinhos como Frontera e Hora Zero.
Como outro mais dos desaparecidos pela ditadura argentina foi seqüestrado em 1977.]
El Eternauta I Oesterheld & Solano López (1957).

El Eternauta I Oesterheld & Alberto Breccia (1969).

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Primeiro volume do horror quotidiano.

Título: Desde el abismo. Historias que miran nuestros horrores más profundos.
Autores: Max, David Rubín, Pere Joan, Sonia Pulido, Esteban Hernández, Brais Rodríguez, Luis NCT, Zoraida Zaro, Jorge Parras, Carlos Arrojo, Rubén Varillas, Juan Gargallo, Elfélix, Mik Baro, Geo Rôo.

Prólogo: Yorkshire (José María Carrasco, o editor).

Editorial: Viaje a Bizancio Ediciones.

Data de publicação: 15 de janeiro do 2008.

[
Álbum 19x28'5, capa branda com lapelas, 15
2 páginas em preto e branco. Longa entrevista ao desenhista Max, um conto de Luis NCT e dois artigos de Álvaro Pons e Rubén Varillas.]

Com tão só dois títulos nas livrarias e sem cumprir-se ainda um ano de sua criação, esta nova editorial já publicou trabalhos de dezasseis desenhistashistas. Como foi possível este acontecimento?

Eles explicam quem são:
Viaje a Bizancio Ediciones é uma editorial sevilhana nascida no ano 2007 com a intenção de abrir portas aos autores espanhóis e publicar aquelas obras irrenunciáveis que tudo leitor devesse ler. Queremos ser uma editorial de autor e de leitor: unir o talento do desvalorizado autor espanhol com o interesse dum leitor fam
into por ler algo novo, clássico e de vangarda.
Uma publicação especial composta por quadrinhos de diferente extensão e ilustrações construídas sobre a angústia humana. Um terror comum, familiar sempre, fatalmente oculto.
Mundos oníricos nos que seus personagens enfrentam o ordinário e desaparece
m, histórias cotidianas rompidas pela irrupção duma verdade irracional que nutrirá raízes familiares, traições sociais ou apetencias inconfessáveis. Como ocorre en Ciprés (Jorge Fernández), Una ocurrencia cualquiera (Juan Gargallo) e Migrañas (Elfélix).
No entanto, é a entrevista ao desenhista Max sobre suas ilustrações para este relato (link) do escritor Marco Denevi o aspecto que volta excepcional esta publicação e não a proximidade temática dumas HQs que bem poderiam-se publicar em qualquer revista de histórias em quadrinhos. Revistas nas que, por causa da pretenciosa objetividade, jamais se encontra uma autêntica conversa entre o suposto entrevistado e o verdadeiro entrevistador. Assim, será esta conversa mantida com o desenhista (Premio Nacional del Cómic 2007) o que converta Desde o abismo num objeto de colecionador no futuro.
Informação sobre os autores neste link na web da editorial, e um dado cuiroso: as direções de blogs e webs de todos os desenhistas, ilustradores e articulistas foram incluídas na HQ.

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Um tebeo numa revista política.

Título: Huracan en Felicia.
Roteiro: Victor Mora.
Desenhos: Alfonso Font.
Prólogo: Armonía Rodríguez.
Editorial: Ediciones de la Torre, coleção Papel Vivo (nº 15).
Data de publicação: maio de 1980.
[Álbum 22x30, capa branda, 48 páginas em branco e preto. Cartuns dos autores por Adolfo Usero, mais dois breves notas biográficas. Uma nota na página final assinala que ajudou a terminar a obra o desenhista Carlos Giménez.]

Tequila Bang foi uma história em quadrinhos criada por Victor Mora e Alfonso Font para a revista La Calle. Uma revista semanal que abordava qualquer tema da atualidade, especialmente sobre política, desde a esfera esquerdista própria de seus empregados e colaboradores. Um ponto especialmente meritório. Não só porque durante a época da sua publicação (1978-1982) fossem ainda de recente aplicação algumas importantes leis sobre a suspensão e seqüestro de publicações ou a legalização do PCE (Partido Comunista Español), senão devido a sua beligerancia contra a aceitação das consignas sugeridas desde os órgãos de poder a respeito da necessidade duma absoluta neutralidade por parte dos meios de comunicação nacionais no processo de democratização. Uma atitude que lhes impediu manter uns rendimentos publicitários conformes com sua difusão.
Afim, a protagonista desta HQ não é alheia à ideologia esquerdista da revista na que se publicou originalmente como também não o são seus próprios criadores. Ainda que este aspecto se faz bem mais evidente na segunda de suas aventuras, Tequila Bang contra el Club Tenax (álbum ao que dedicarei seu próprio espaço proximamente).
Ao respecto desta edição da coleção Papel Vivo, e ante a impossibilidade de ler novamente algum exemplar de La Calle, parece-me relevante incluir a nota editorial impressa na contracapa deste álbum -mostra da profissionalidade dos seus editores-:
Nota editorial
A presente edição do primeiro episódio de Tequila Bang, o mesmo que a do segundo (Papel Vivo, nº 11), reproduz integralmente as lâminas originais -incluindo as cabeceiras- tal e como apareceram em seu dia na Revista A Rua, respeitando assim todo o trabalho de roteirista e desenhistas, ainda que naturalmente com o formato e características da nossa coleção.
Huracan em Felicia é uma história realmente singela onde as funções dos personagens e os diálogos arruinarianse nos mesmos espaços comuns a tantos outros seriados de aventuras se não fora pelo tom de humor característico dos quadrinhos de Víctor Mora. Um roteirista que conseguiu escrever histórias em quadrinhos juvenis e inclusive histórias bélicas narradas desde uma visão adulta e sempre crítica.
A protagonista, Tequila Bang, uma mulher de vinte e quatro anos que trabalha como famosa modelo em Inglaterrra é, em realidade, a afilhada do lama supremo do Tibet. O líder dos monges guerreiros do vale do loto (budistas-leninistas) que adotaram a Tequila quando não era mais do que uma menina à que adestraram física e intelectualmente com o fim de defender aos oprimidos, a justiça e a liberdade. Não se arrenegue mais o leitor actual, pois esta HQ resulta entretida ainda hoje e os seus personagems não se assemelham em excesso aos exagerados ideais dos filmes de Hollywood.
A ação trancurre em Felicia, um pequeno país de ficção na América do sul, justo depois dum terrível furacão (não se assustem este recurso contínua sendo um dos preferidos dos roteiristas e editores da Marvel e DC) . Ali, Tequila terá que ajudar a um jornalista norte-americano a reunir provas que demonstrem como os líderes do governo do ditador Ramirez comercian cos recursos humanitários estrangeiros recibindo grandes quantidades de dinheiro em contas suíças. Partidos democráticos ocultos na clandestinidade, um povo indígena submetido a uma cruel perseguição, interesses políticos internacionais, agentes governamentais que se sabem úteis para qualquer outro novo governo.... Uma história semelhante aos comics-books de Archie Godwin e John Byrne para o superhéroe Wolwerine (nº 17-23) .
Não são as melhores histórias em quadrinhos de Mora e Font mas possuem pequenos detalhes que fazem dela uma obra interessante. Como essa máscara grega acompanhada do lema 'Liberdade de expressão' que, segundo as datas das assinaturas do 3-78 da primeira página ao 25-8-78 da última, quiçá possua uma referência real na Espanha daqueles tempos.
Só encontrei um enlace sobre La Calle, não oferece dados concretos sobre o envolvimento dos quadrinhistas nese medio mas sim um bom resumo da história da própria revista: clique aqui.

Sábado, 29 de Março de 2008

Tempestade de hóstias.

Título: Guerreros urbanos. Tormenta de hostias.
Desenho e roteiro: Pere Pérez.
Prólogo: dois comentários a modo de apresentação dos desenhistas, amigos e ocasionais colaboradores do autor, Enrique Vegas e Kenny Ruiz.
Editorial: Dolmen Editorial, coleção Siurell.
Data de publicação: 2007.
[Álbum 17x24, 48 páginas e capa branda, branco e preto.]

O título desta história em quadrinhos é muito descritiva. Não terá leitor que o confunda com a história dums meninos que brincan fazendo voar cometas construídas com as supostas cartas de amor que seus pais lhes escreveriam se não tivessem morrido uma manhã qualquer enquanto olhavam seu reflexo num espelho. Pois não é um slice of life -Pere Pérez não dispõe, seguramente, de tempo bastante como para se demorar arrancando pequenas laminas de sua própria pele, ou a dum vizinho, com a que explicar a razoavel santidade do tempo esvaido-.
Certamente, tanto o estilo dos desenho como o motivo da portada também não pertencem ao underground social e a sua capa remetenos a cartazes cinematográficos e comics-books de ação. Hoje os adeptos aos quadrinhos de gênero estarão muitíssimo felizes de ler a este autor, que logo de criar HQs eróticas para revistas de histórias em quadrinhos e participar em projetos coletivos como Buldamn City conseguiu publicar na coleção Siurell. Uma linha editorial de Dolmen Editorial, dedicada, sobretudo, aos quadrinhos de gênero e humor, que se distingue pela publicação de autores espanhóis.
Pere Pérez foi nominado na categoria de autor revelação para o Salón del cómic de Barcelona deste ano, e até parece que Guerreros urbanos está ser um sucesso de vendas. Assim, terá uma continuação titulada 'A senda del Galleto', bem mais centrada nas artes marciais do que esta primeira aventura. Não em vão son os dois maiores interesses do desenhista, a música rock e as artes marciais, os elementos fundamentais da caracterização dos seus personagens. O Yoni, o Kingo e o Tazas são três jovens amigos que compartilham a sua aficción a Metallica e se enfadam com facilidade com qualquer que crítique esta música (o próprio autor confessou que o título 'Tormenta de hóstias' é uma das canções de Gigatrón). Uma vida singela na periferia duma grande cidade com todos os elementos que lhe são comuns ao leitor espanhol, desde o espaço urbano, as roupas e os videogames, até a linguagem dos personagens: insultos e modos grosseiros que, sem terse proposto representar uma fronteira entre fala e língua, consegue manter em todo momento um estilo coloquial neutro que será facilmente identificado por qualquer falante de língua espanhola. Tudo isso utilizando vocábulos e metáforas que conseguem o tom de humor adequado para equilibrar a violência necessária no seu desenvolvimento argumental. Cujo elemento detonante será terse envolvidos os protagonistas na morte acidental dum distribuidor de drogas.
Eu creio que seria interessante comparar a narração empregada em Guerreiros Urbanos por Pére Perez com seu trabalho no mercado do comic-book USA a fim de comprovar as diferenças fundamentais entre um e outro. Pois não vejo possível que roteiros alheios mantenhan um dos rasgos mais sobressalentes desta HQ, hoje infreqüente nos comic-books: as elipsis entre vinhetas ou páginas nas cenas de ação.
Não duvido que desfrutaria muitíssimo lendo Dragonlance (link) ou Savage tales (link) e que este desenhista poderia surpreender-me com montages fragmentados de vinhetas unidas como às da morte do vendedor de drogas. Tambén as criaturas monstruosas são as minhas favoritas, mais espero uma nova história de Guerreros urbanos.

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

IV Premio de banda desenhada Castelao.

¿E porquê não se apresentar a um concurso de histórias em quadrinhos convocado pela Diputación de la Coruña? Seria muito emocionante que este ano o ganhador fosse português, brasileiro ou angolano.
Loucura? As bases do prêmio permitem participar a artistas de qualquer nacionalidade, somente devem ser maiores de idade. Se um autor brasileiro, português ou angolano, enviasse a este concurso de CÓMICS um trabalho inédito tão só teria que superar o problema que pode supor a língua galega. Uma barreira fácilemte franqueable mal se enfrente com inteligência ou um pouco de picardia.
Os três ganhadores anteriores foram David Rubín, Antonio Seijas e Jacobo Fernández, cada um destes nomes é um link no que poderás apreciar uma mostra de seu trabalho (meu favorito é Rubín).
Estas são as bases para participar no IV Prêmio de banda desenhada Castelao:
PRIMEIRA. Poderán participar todas as persoas, maiores de idade, de calquera nacionalidade que apresentem narracións em banda deseñada inéditas e non premiadas com anterioridade, escritas em galego, cun máximo de dous autores por obra (um como roteirista e outro como debuxante).
SEGUNDA. Estabelecese um prêmio único dotado com 6.500 €.
A Deputación publicará a obra premiada, diretamente ou através doutra editorial, mantendo o autor ou autores os dereitos pára a possível edição da obra noutras linguas que non seja a galega. Assim mesmo, cos traballos orixinais formarase unha exposição de caráter itinerante.
TERCEIRA. A temática será livre, podendo tratar-se dunha história única ou dun conxunto de histórias. Os traballos presentaranse por duplicado e em exemprares separados, numerados, grampados ou encadernados dá seguinte forma:
- O livro presentarase finalizado, tanto em roteiro como em debuxo.
- O formato deverá ser de mancha 26 x 19 cm., ou proporcional.
- Tamanho dois orixinais: mínimo DIN-A4 e máximo DIN-A3.
- No caso de que a maiores os traballos se apresentem em suporte dixital, deverão figurar a tamanho final (26 x 29 cm.) e em resolução de 300 ppp para cor, 400 ppp para cinzas, ou 600 ppp para branco e negro, em suporte CD e formato TIFF.
- Extensão mínima 48 páxinas e máxima 64 .
- Pára a súa valoração enviaranse cópias encadernadas em DIN-A4 com calidade laser.
- Os orixinais seranlle requeridos o gañador para o processo de edição e preparação dá exposição. As obras presentaranse baixo um título e um lema, achegados de plica na que conste o título e o lema no seu exterior, e contendo no interior o nome e apelidos do autor ou autores, o seu endereço, nacionalidade e número de telefone.
No caso de autoria conxunta, deverá incluírse documento explicitando a participação da cada quen e a porcentaxe do prêmio pactuada entre vos autores, correspondentemente asinado por eles.
QUARTA. O prazo de admissão de orixinais finaliza ou dia 31 de maio de 2008 e deverão enviar-se á Deputación dá Coruña, Avda. Alférez Provisional 2, 15006 A Coruña, indicando no sobre “IV Prêmio de banda deseñada “Castelao”.
QUINTA. O xurado estará presidido pólo sr. presidente dá deputación e farão parte do: ou sr. deputado presidente dá Comissão de Cultura, Educação e Patrimônio Histórico-Artístico, ou diretor do festival “Vinhetas dende o Atlântico”, três persoas de recoñecido prestixio no eido dá banda deseñada nomeadas pólo sr. presidente dá deputación; atuará como secretário o dá corporação ou servidor público no que delegue. A composição do xurado farase pública com anterioridade a súa reunião, co fim de que se poidan interpor, se é ou caso, os recursos legais pertinentes.
SEXTA. Os participantes terán a obriga de comunicar á Deputación a concessão de calquera prêmio que obtenha a obra apresentada no momento em que esta situação se produza, ou que
dará lugar á súa exclusão do concurso.
- O xurado atuará em pleno, em sessão a ser posíbel única, sendo necessária a assistência duas dous terços dois seus membros.
- As deliberacións serão secretas e delas redatarase a ata correspondente.
O xurado non poderá declarar deserto o prêmio e a súa proposta será obxeto de resolução dá Presidência desta Deputación, que é o órgão competente pára concede o prêmio.
- O xurado poderá realizar unha seleção entre as obras non premiadas, pára a súa inclusão nunha exposição, que será itinerante pólos concellos dá província, e dá que se editará ou correspondente catálogo.
- Os autores presentes na exposição receberão cinco exemprares do catálogo.
- A decisão do xurado terá lugar ao longo do mês de xuño. A plica correspondente á obra que resulte finalista poderá ser aberta pólo secretário do xurado com fim de que, se o seu autor o permite, poida darse a coñecer o nome do finalista.
SÉTIMA. Non se devolverão as obras apresentadas e non premiadas e a partires do dia seguinte ou falha do xurado serão destruída.
OITAVA. A participação nesta convocação supõe a total aceitação destas bases.
BANDA DESENHADA
O soportal da banda deseñada galega. (Link)
O Castelao de banda desenhada faz parte do projeto da Diputación de la Coruña para o fomento da criação literária e artística, desde a fotografia e o fotoperiodismo do prêmio Luis Ksado ao Raíña Lupa de literatura infántil ou o Antonio Fraguas de artesanato.
"Com perseverança qualquer artista supera as convenções ortográficas. Oxalá que ganhe um português, brasileiro ou angolano, este Castelao de banda desenhada!"
(O diz um de Madri.)