Assim devia ser a viagem?
Quero servir-me deste blog para aprender português e divertir-me enquanto recordo alguns velhos quadrinhos espanhois (algum atual). Seguramente logo de mil anos eu rirei com todos os absurdos gramaticais e erros ortográficos... "Terei um montão de post por corrigir!"
Perdoem os erros gramaticais, qualquer indecisão ortográfica, e assinalem essas faltas se dispusserem de tempo, obrigado!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Artista crava os dentes em Drácula



Título: Drácula.
Roteiro e desenhos: Fernando Fernández.
Editorial: Glénat España, Coleção Fernando Fernández.
Data de publicação: 2004.

[Álbum colorido (29x21), capa dura, guardas fantasia, costurado e encolado, 96 páginas. Prólogo da edição de 1984 escrito por Maurice Horm ¡Drácula vive!, e un novo texto do crítico e roteirista Pepe Galvez Fernando Fernández. La inquietud del equilibrio.]

Se uma empresa inglesa foi capaz de oferecer um gelado baseado no personagem criado por Bram Stoker porque não iam aproveitar os editores de histórias em quadrinhos essa imagem do Conde Drácula? Aquele gelado era artificial mas muito refrescante e saboroso. E ainda há tempo de ler algumas boas adaptações do mítico romance como este Drácula do quadrinista Fernando Fernández.  Precisamente numa reedição da editora Glénat (ano 2004).
Eu já nem sei como apareceram três resenhas seguidas sobre tebeos desta editorial espanhola em meu blogue. Eles compraram terreno aqui ao publicarem novas BDs de gênero e autores de quadrinhos dos anos oitenta e setenta, mas lembrem-se que na blogosfera portuguesa voltou à vida Zakarella. Esse é o autêntico assunto que inspira minha resenha [link]--> zakarella.blogspot.com

"O mais notável nas histórias de vampiros é que elas têm compartilhado com os filósofos –outros demônios – a honra de assombrar e confundir o Séc. XVIII; horrorizaram Lorena, Prússia, Silésia, Polônia, Áustria, Rússia, Boêmia e todo o norte da Europa. Em cada século, certamente, teve suas modas; em cada país, como observa o Sr. Calmet, teve suas prevenções e suas enfermidades. Mas os vampiros não apareceram com todo seu esplendor nos séculos bárbaros e nos povoados selvagens: revelaram-se no século de Diderot e Voltaire, e na Europa que dizia-se já civilizada."

Dicionário infernal, Collin de Plancy (tradução de [PDF]--> Mayén Gajardo).

Eu não sei dizer realmente se Fernando Fernández gostava de cravar os dentes nos gelados, mas desta vez foi ele que deu dentada no editor; na melhor forma, publicando seu Drácula na revista Creepy (vol. 1, nº 36-48) de Josep Toutain entre os anos 1982 e 1983. Pois trata-se duma expressão pessoal do desenhista "é uma homenagem a Stoker com o cuidado de que seja o mais fiel possível, já que sua obra tinha sido amachucada e desvirtuada no cinema e nos quadrinhos.", uma adaptação que logrou êxito internacional.
Que eu saiba, pela primeira vez na história da Banda Desenhada um autor empregou-se como leitor, criador e  desenhista do romance do escritor irlandês fora dos límites das tópicas conglomerações vampíricas, com personagens e atmosferas de pobre caracterização, até então existentes. O vampirismo deste quadrinista é calmo e frenético apregoando o terror sexual, sem fugas folhetinescas, fiel a obra. Seu Conde Drácula também não teme realizar-se através do empreendedorismo popular que cortou a sombra do vampiro a partires do modelo desse aristocráta decadente conhecido por todos.  Uma figura masculina, dramatica e sinistra, facilmente reconhecível. Longe do monstro e os cenarios sexuais mistificados de Guido Crepax, más também do sórdido supervilão de Tomb of Dracula.
Não é por acaso que os remoinhos históricos e a poeira de morte e sexo, fascínio erótico e despertar feminino, que sempre caracterizaram as leituras do romance permanecem dormindo, silenciosos e sensíveis nas cenas que examinam interiormente as personagens, ou naquelas outras formadas pelos diarios e cartas, para magnificar nas cenas de ação esse escândalo da existência real do mal que os protagonistas vitorianos não se atrevem a tolerar. Já o autor acertou na sua tentativa de respeitar o modelo epistolar ao igualar a amalgama de pausa e vertigem ilusória própria da aparição do vampiro às manifestações/revelações de vítimas e caçadores. O ataque de Drácula é lento mas trémulo e instântaneo. E o rosto dos humanos é um rosto interior claustrofóbico, invadido pela blasfemia do vampiro. Por sua vez, o modelo epistolar só é adaptado nos pontos necessários, alí onde os referentes pictóricos não parecem capazes de adotar completamente o temor do Senhor assassino monstroso e a luta histórica e social entre os britânicos e Drácula.

Meu derradeiro lema publicitário: Este é o tebeo romântico que todo leitor de passaportes vampíricos deveria ler.







[]--> Editorial para Tebeosfera 3 especial La generación del compromiso

Neste número (publicado em 2009) da revista web sobre historieta Tebeosfera adicado aos autores espanhóis que transformaram os quadrinhos na Espanha de finais dos anos setenta e durante a transição democrâtica foi entrevistado o quadrinista Fernando Fernández. Também publicaram ótimos textos teóricos e resenhas de suas obras que vale a pena conferir.

Javier Mora Bordel e Mauel Barrero []--> Camino de perfección. Entrevista con Fernando Fernández.

O roteirista e crítico dos quadrinhos Javier Mora Bordel []--> La palabra dada: Mecanismos de adaptación en el Drácula de Fernando Fernández.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A historieta militarizada


Título: Dos águilas de un tiro.
Roteiro: Hernán Migoya.
Desenhos: ilustrações de José María Beroy (págs. 5-16), bosquejos de Joan Fuster (5-52), arte-final de Perro (17-52). E capa de Gallardo.
Editorial: Ediciones Glénat, coleção Nuevas Hazañas Bélicas - Serie Roja.
Data de publicação: decembro de 2011.

[ Álbum com capa dura, lombada cosida, guardas fantasia (collage de antigas capas da série em quadrinhos Hazañas Bélicas), 56 páginas (32x24), interior em preto e branco. Artigo do roteirista, crítico e historiador dos quadrinhos Toni Guiral sobre o quadrinista Boixcar , criador da série original, Boixcar: Un referente.]

Outro evento sincronístico? Meu blogue é um embrião, enquanto eu escrevia a resenha anterior não podia imaginar o que aconteceria na seguinte. Mas aconteceu... e eu não logrei fugir à II Guerra Mundial.
Contudo, os gibis grampados transformavan-se nuns vistosos álbums europeios, o som e o ritmo do horror mitológico virou militarização, façanha bélica. Embalada com a vinda do título producido por uma das editoriais clásicas dos tebeos espanhois durante os anos 40 e 50 do século XX, Ediciones Glénat (uma empresa líder na reedição e valorização de obras e autores que fazem parte do patrimônio dos quadrinhos espanhóis) recupera a tradição das historietas de gênero bélico com a estreia de sua coleção Nuevas Hazañas Bélicas. Uma nova série de dois álbums anuais que acomoda para o público atual a estrutura e os desenhos das histórias de guerra do quadrinista Boixcar. Seu mítico Hazañas Bélicas de Ediciones Toray é um dos títulos referenciais da época dos cuadernos de aventuras (gibis grampados de formato horizontal), a obra que homenageia esta nova coleção.
Desta maneira, escolheu-se a intrõdução de protagonistas espanhois no espaço histórico da II Guerra Mundial, o mesmo ambiente da série original. É digno de nota o caráter divulgador dos artigos que acompanham o álbum, escritos por Toni Guiral, pela sua informação detalhada, pois, também sendo rigorosos, estabelecem entre o leitor atual e a obra de Boixcar uma cualidade afetiva pondo em relevo as regras do jogo social que na época influenciam nos símbolos e categorías emblemáticas daquelas histórias originais. Assim, graças à eles, um possível leitor estrangeiro nem mesmo precisa conhecer a história da Espanha, ou as circunstancias editoriais na produção de HQs durante a postguerra espanhola, para perceber os motivos do éxito de Hazañas Bélicas.Já na linha dum dos ámbitos prediletos dos colecionadores voraces, e como homenagem a estrutura narrativa e argumental da série de Boixcar, cada álbum inclui um gibi em formato horizontal, imitando o universo imagético e a reprodução dos antigos cuadernillos, onde se narram fatos anteriores ao argumento principal.
Ainda está por apontar a melhor ideia deste projeto, ideia genial, a coleção divide-se nas Série Roja e Série Azul, sendo que cada uma delas refere-se respectivamente ao bando dos republicanos e o dos nacional-católicos. Enquanto isso, ambas as duas séries são protagonizadas por personagens coherentes co sistema simbólico gerado nas formas que adotaram os fatos históricos e os cambios morfológicos da sociedade espanhola dos anos anteriores e posteriores à guerra civil de 1936. Assim entende-se a escolha do roteirista Hernán Migoya duma dimensão paradoxal da violência onde a ação projectada por um sujeito individual não parece diferente da própria ação violenta doutro cualquer individuo pertencente ao bando oposto. Quiçá uma vulnéravel, tenra, atraente mas repulsiva metonímia modernizadora que retem na memória o melodrama clásico das historias originais se afastando das propostas do pretenso caeleidóscopio dum cenário costumbrista.

Açular os meninos.




Dos águilas de un tiro apresenta a aventura sacramental dum miliciano republicano disposto a assasinar a Hitler e Franco durante o encontro dos ditadores na fronteira da Espanha e a França ocupada, em Hendaye. Não obstante, da mesma forma que algumas das velhas histórias de Hazañas Bélicas nas que o argumento principiava num conflito injusto entre os mesmos personagens que logo se encontrariam lutando na II Guerra Mundial, a façanha do santo republicano começa na fim do levante revolucionário de Asturias de 1934.
Na primeira parte desenhada por Beroy, quadrinista [link]--> muito militarizado, o leitor chega para ver a repressão sangrenta na cidade asturiana de Oviedo. E os 'bárbaros' do ejército espanhol, essas tropas moriscas do coronel Yagüe, demônios africanos levados pelo goberno contra os rojos espanhóis. Súa violência depravada, real e histórica, e minuciosa pela mão dos autores desta BD, percorre um ciclo completo na obra até rebrotar no engarce de ações crueis do santo republicano. Mas antes de tudo isso será preciso que este herói obreiro complete seu poceso de mortificação abandoado aos sofrimentos, como perde sua primeira familia em Oviedo no 1934. Uma harmonia dos pesares que concluiu pouco antes de ver morrer sua segunda esposa assassinada pelos nazis já estando Terio morando na Françã logo da derrota na Guerra Civil espanhola. Para o leitor, o día da consagração eucarística de nosso herói como santo republicano produciu-se durante a descoberta de sua infância, na repressão da folga geral de 1917, quando a mão divina dum jovem Francisco Franco executou com a própria pistola nacional-católica a sua mãe e a sua irmã. O drama duma família pura e inocente, drama dum menino que substituíu seu pai sepultado em prisão por um deus produtor do mal.
Tudo o que eu posso dizer, há muito do que falar do livro mas estragaria a leitura duns futuros leitores portugueses ou brasileiros. A última pista, nosso santo assassino afastara-se da realidade mundana através dum passamento ferroviário:
Esse assassino já não mora nem viverá no tempo porque tudo o que atinge a essa dimensão é maligno. E as árvores do mal tem de ser purificadas para liberar o ideal transcendente do lar e a orde destruidos no passado, um ideal que Terio só é quem de sentir desde o interior de sua arma. Pois é a única profundidade que os seus inimigos não conseguiram afogar... justamente por ser o mesmo objecto existencial que os dois bandos compartem.
Ontem estive a falar com Wyatt Earp, Pancho Villa e Gerónimo, ao que acompanhava seu ruim representante legal na Terra, Forrest Carter, dissemos que esta história em quadrinhos é um material valioso para a poesía e
"Uma BD colossal, farta de sangue e vítimas!" Nenhum de nós conhece outro tebeo com um maior protagonismo do General Franco.
Também se notará com interesse a divisão inicial, os redobramentos e trocas simbólicas posteriores dos espaços e edifícios em que se desenvolve a ação. Nesse caso, explorar as redûndancias nas histórias depois de ler estes dois álbuns pode resultar em algo extraordinário do ponto de vista da autoobservação pura. Esta particularidade, eu não insisto; o melhor é ler os dois títulos publicados, leva-me acreditar numa... futura colaboração de
Alejandro Jodorowsky nesta coleção?



Título: Con los pies por delante.
Roteiro: Hernán Migoya.
Desenhos: Joan Marín. E capa de Daniel Acuña.
Editorial: Ediciones Glénat, coleção Nuevas Hazañas Bélicas - Serie Roja.
Data de publicação: decembro de 2011.

[Quadrinho grampado, formato horizontal (17x24), capa mole, preto e branco, 12 páginas. Inclue-se junto com Dos águilas de un tiro.]


 Este é o cuadernillo (gibi grampado de formato horizontal) que acompanha ao primeiro álbum da Serie Roja. Antetilado ¡Jauría fascista!, Con los pies por delante cumpre os requerimentos da jóia nostálgica como se comprova pelas imagens roubadas. Revela asim mesmo também o paradoiro do pai de Terio, o protagonista de Dos aguilas de um tiro, e o giro do destino pelo que Terio consegue fugir a França. Um melodrama pautado segundo a reparação das injustiças e a honra da série original de Boixcar mas num espaço real:


- Entrevista de Jesús Jiménez na web da []--> RTVE
- HQs e ilustrações de Boixcar no blogue []--> Tebeístas
- Nuevas Hazañas Bélicas na web []--> Imakinarium- Nuevas Hazañas Bélicas no blogue []--> Viñetas 


Notícia, 18 de janeiro de 2012:

O desenhista Joan Fuster []--> explica os motivos da ausência de seu nome na capa do álbum 


Título: Unidos en la División.
Roteiro: Hernán Migoya.
Desenhos: Bernardo Muñoz. E capa de Gallardo.
Editorial: Ediciones Glénat, coleção Nuevas Hazañas Bélicas - Serie Azul.
Data de publicação: decembro de 2011.

[Álbum com capa dura, lombada cosida, guardas fantasia (collage da antiga série em quadrinhos Hazañas Bélicas), 56 páginas (32x24), interior em preto e branco. Artigo do roteirista, crítico e historiador dos quadrinhos Toni Guiral sobre a série espanhola de quadrinhos bélicos Hazañas Bélicas: ¿Una visión más humana de la guerra?]


A protagonista do segundo dos relatos martirológicos publicado na coleçao Nuevas Hazañas Bélicas é uma adolescente arrolada na didática social da Guerra civil española de 1936 do bando dos vencedores nacional-católicos. Já sei, agora voçê crê que eu revelei um dado importante demais para serem conhecido por uns leitores portugueses e brasileiros que desejam ver publicado o álbum em seus países, mas só dissem o que um leitor averigua na primeira página deste álbum. Apesar das duas imagens roubadas como amostras para minha vaidosa resenha, o travestismo da protagonista não é nenhum segredo para o leitor.
Também na Serie Azul um fato histórico está no começo da aventura, a entrada das tropas nacional-católicas em Barcelona o día 26 de janeiro de 1939. Mal vestida e suja, a protagonista se encoraja, e sussurra por trás dos transeuntes "Demasiado tarde", ao contemplar o desfile militar. O desfile segue violento, na má direção, principalmente em se tratando dum triunfo. Algum espectador lançou um embrulho no passo do tanque, as poucas pessoas perto nem sequer olham quamdo o carro blindado detem o desfile. Não é urgente nós preocuparmo-nos com o que aconteceu, eu vi um braço mas esta só é a apresentação de Unidos en la División.



Uma virgem invisível.
E por fim nossa protagonista, Ángel, traveste-se para formar parte da División Azul como um mais dos voluntários espanhois que fazem parte das tropas alemãs. Com destino à frente russa.
Aqui se faz carne para estes espanhóis a II Guerra Mundial. O roteirista resgata essa preocupação por achares a vida e deparar com propósitos viventes de humanidade semelhantes aos que o quadrinista Boixcar empregou em suas histórias. Acontecimentos onde as personagens mostram-se por si mesmas não só como são os feitos e as relações entre os bandos senão também como deveriam ser.
Agora, sim, agora não contarei nenhum segredo, pois ao igual que os episódios portentosos protagonizados por estátuas do sistema de representação católico o motivo do alistamento militar de Ángel é avaliado pelo embate entre a representacão e a presença; é claro, Ángel/Ángeles, uma personagem de morbidez estereotipada pelo arquetipo da mediadora, foi empregada pelo roteirista Hernán Migoya para que os personagens masculinos escapem aos ciclos da vida comunitaria, os soldados importantes nesta HQ são adolescentes. Esta natureza ambivalente da mediadora marca as relações das personagens anulando as associações redutivas dos bandos (alemães, espanhóis, russos, nazis, judeus, republicanos, fascistas, comunistas). De fato, um dos soldados alemães 'autoanulara-se' ao não suportar essa energia de mediação. A energia duma virgem invisível.




Hehehe!, imagem epifánica.
Eu já dije que nossa virgem é uma imagem ambígua e mórbida, seu corpo foi raptado à Igreja pelo que seu poder, literalmente ao alcance da mão desses soldados, está mais além de qualquer pedagogia e jerarquia social ou religiosa. E o desenhista
Bernardo Muñoz tem grande responsabilidade nisso, é impossível imaginar uma mediadora sem sensualidade. Se eu me permitise contar qual era a profissão de Ángeles antes da guerra começar na Espanha... (Breves aparições dalguns artistas espanhóis ilustres que lutaram na Russia.) 


- Acidente "Oh-oh..." []--> dibujantebern.blogspot.com







Título: Furia roja.
Roteiro: Hernan Migoya.
Desenhos: Diego Olmos. E capa de Daniel Acuña.
Editorial: Ediciones Glénat, coleção Nueva Hazañas Bélicas - Serie Azul.
Data de publicação: 2011.

[Quadrinho grampado, formato horizontal (17x24), capa mole, preto e branco, 12 páginas. Inclue-se junto com Unidos en la división.]

 

Na verdade não há mais nada que eu possa contar sem violar o segredo desta história, neste cuadernillo resolvem-se os misterios do roubo da virgem invísivel e seu embrulho. Uma história de fadas, martirio, e fantasía.





- A documentação gráfica de Boixcar []--> Boixcar, Adler y Signal- HQ La sima azul no blog []--> Pecios
- Número 31 da revista brasileira []--> Combate


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

o grampo do horror.

Título: Hamramr.
Roteiro e desenhos: Mike Ratera.
Editorial: Ediciones Glénat España, coleção Tebeos Glénat - Autores Españoles.
Data de publicação: 1995.

[Série de seis comicbooks de 28 páginas (26x17) com capas coloridas e interior em preto e branco. Breve resumo argumental na segunda coberta dos números um até o cinco, e um texto editorial no sexto e derradeiro da série.]

Muitos dos quadrinhos espanhóis que eu mercaba eram cadernos grampados (comicbooks), quando estes ainda eram um objeto diferente das outras moedas comuns na cultura. Esses anos noventa foram a Época do grampo: primeiramente os jovens desenhistas procurando auto-editar seus propios trabalhos, e o surgimento dos editores aficionados. Logo depois daquilo, as editoras profisionais Norma, Glénat España e Planeta DeAgostini começaram a reproducirem o exitoso e estranho fenômeno -ou seria ir um pouco além ao citar o editor legendário, Josep Toutain, e os clásicos grampados Kraken, As de pique, Andrax...- mas atrevo-me a acrescentar que, ainda que não sempre estivessem invariável e corretamente concebidas, as duas linhas editoriais ou colecções que emferrujam e corroem o papel ao seu arredor publicaram os melhores comicbooks que eu li nesse anos.
Existe sim, outra afirmação, eu era leitor devorador de quadrinhos de cavaleria super heróica. Um tipo de banda desenhada comercializado na Espanha no mesmo formato. Esse era o engano maravilhoso!
Como leitor de tebeos, foi uma grande época para mim; as tradicionais revistas de histórias em quadrinhos morreram, mas eu ja tinha encontrado outro alimento. Uma patuscada, fora de horas, de vida breve mas intensa. Pouco mais de nove anos. A Época do grampo.Hoje escolhi duas BDs de horror da colecção Tebeos Glénat - Línea autores españoles, creio que são autores famosos no mundo dos quadrinhos. Quiçã não são. Somente sei que estas imagens furtadas seram uma rúa radial até o centro da única cidade circular realmente existente. Internet.

"O que é mais profundo no homem é a pele" , Paul Valéry

Muitos dos amigos deste blogue, encanecidos leitores doutras torturadas historietas terroríficas, já reconheceram a palavra marcada pelo quadrinista Mike Ratera para titular sua obra, Hamramr, e agora sorriem. Ás claras, lobisomen! Um culto muito maior que o habitual no que o desenhista recria um espacio psicológico e cultural para o lobisomen concentrando seu gesto educado no folclore e a mitologia germânica. Mas ele ordena e estabelece seu modelo dentro dum trajecto afastado do simples catálogo de referências: o acampamento da selvajeria urbana onde mesmo o lobisomem perde a sua pele para mostrar a supervivencia duma antiga tradição ainda não extinguida, a cidade como território.
Não por acaso, o senhor Ratera situa-nos asim perante o horizonte da grande urbe indefendible da Grande Maçã, onde um gigante perfeito (superior) toma o vento e cheira o ar como um animal. Invísivel. Trás do sufrimento, o mal e o vicio das muralhas dos ranha-céus. E atopa a primeira vítima para o sacrifício urbano, um nigger, ou nigga, un descendente dos escravos. Pecando pela drogadicção junto ao sulco da Roma moderna, muro baijo, uma porta redonda pela que os mortos saem da cidade. Ambos são o ideal um do outro, vítima e asasino, en Central Park, os refundadores de Nova York.
O asasino, Erik Wulkan, veste uma gabardine mediante a qual se transmite a brutal analogía da mudança de pele, igualmente utilizada por Frank Miller e seu personagem Marv (Sin City). Ainda que a mudançã de Erik Wulkan resulta mais extrema, pois contrariamente às cicatrizes, o rosto de couro, e o jogo irônico dos sobretudos de Marv, mostra-se como um medio sensorial. As svasticas tatuadas sobre seu corpo são a primeira pista deste caráter sobrenatural de Hamramr.
Depois desa sangrenta refundação da metrópole conhecemos a Clinton, irmã da vítima sacrifical, prostituta e bailarina, uma vingadora que se tornará sensível à fonte natural do poder de Wulkan atravessando sua própia iniciação dolorosa. E a Jacob Levitz, o caçador de nazis. Protagonistas desta história de horror onde se aunam a II Guerra Mundial, a perseguição dos nazistas na América, e a impossibilidade da grande urbe para absorver o social-fragmentário. É nesta senda das lembrançãs do lobisomem que o leitor encontra o dia de sua transformação radical, quando as tropas de Hitler retrocedem em Rússia como animais selvagens. Acredito que podem ser os momentos preferidos doutros leitores espanhóis que ainda recordem estes tebeos; ao labor de documentação do autor sobre a ideologização dos soldados alemães achegam-se os relatos dos guerreiros nórdicos e os ataques de loucura diabólica atribuídos pelo folclore aos homens que se apropiavam das formas das bestas. 
Seria estupido recordar a derivação da palavra hamr, ou as histórias rusas sobre os homens cobertos de peles que percorriam o país saqueando e matando. Mike Ratera tem amalgamado todos esses componentes numa BD mitológica, seu lobisomem mistura o refinamento na crueldade dos soldados nazistas à loucura diabólica das crendices russas e a pele e a roupa das lendas nórdicas. Tal como se pode apreciar na imagem acima, a esquisita crueldade dos soldados semelha-se ao comportamento atribuído pelo folclore russo aos seus lobisomens, o protagonismo do horror sobrenatural é o maior logro. Uma conclusão lógica, pois o embelesso racista do oficial das SS protagonista da história tem seu equivalente expresso pelas expêriencias cosmo-biológicas estudadas por Mircea Eliade sobre a autoctonía mística. (Eu creio que) Só o personagem Slaine de Pat Mills reflite o mesmo sentimento, mas ao pertenceres ao gênero da fantasía heróica é facilmente apreciável. Bem mais fácil do que refleti-lo num quadrinho de horror? Não vou esquecer a pergunta.





Veja agora imagem ao lado, o lobisomem de Mike Ratera. O berseker. Erik Wulkan logo de se transformar no homem perfeito que o fanatismo hitleriano profetizava, eu já anunciei, no passado ou no futuro, gabardine o couro de animal, são o reflexo dum mesmo elemento, a pele. E a mudançã da pele como modificação da experiência sensorial.
Nunca relatarei o que foi de seus soldados. Ou a cerimonia que transformou a Erik Vulkan num monstro superior. Pois quero que os meus vizinhos de blogue possam ler a história. Entre outros 'horrores aos quadradinhos', por exemplo o grampo de Jesús Saiz, Azoth, este tebeo merece ser reeditado na Espanha, ou em qualquer outro lugar. De regresso, enquanto esperamos pelo milagre da reedição deste material popular, repetitivo e mítico, referirei outro dos aspectos mitológicos desta BD: o horror urbano.
Esquecer-vos daquele sovkhoz. O lobo, o cemiterio e as strigoi. Já vos dissem que seu primeiro asasinato new-yorkino aconteceu no centro da cidade? Como Eliade, como Ricardo Barreiro e Juan Giménez, o senhor Ratera conhece a importância do centro. Uma mulher "Es deseo de mi señor Shango que así sea.", um velho judeu "¡Con la ira de Yavé yo te destruyo Golem!", dos tolos assasinos perseguem ao lobisomem; um deles lhe extrairá sua última pele, outro atravessará seu coração. Como num filme de Jon Carpenter, privado de todos seus emblemas mágicos a nova criatura deixa atrás seu passado, a guerra, a ideología nazista, quiçá, a raíz folclórica (demasiado remota) para instaurar un novo terror nos subúrbios. Um horror sem identidade entre os cubos de lixo da cidade.
"O que separa a alma do corpo não é a morte, é a vida.", Paul Valéry, e num meio modelado pelas diferenças sociais e raciais a vida separa os arranha-céus dos príncipes que os levantaram. Neste ordem formal do universo cada assasinato, cada ato de desigualdade, refunda a cidade, então o lobo não precisa de sua pele.
 


- Uma história de Mortadelo e Salaminho/Salamão e Mortadela com roteiro e desenhos de Mike Ratera no blog [link]--> El rincón de Mortadelón
- Resenha de Hunter no blog []--> markowsky4ever.blogspot
- Mike Ratera em []--> Historeitistas españoles de la A a la Z








 - Blog do quadrinista []--> mikeratera.blogspot.com
- Mike Ratera e Conan []--> Ultimate Conan Fanblog


 

Título: Hombres y bestias.
Roteiro e desenhos: Rafael Garrés.
Editorial: Ediciones Glénat España, coleção Tebeos Glénat - Línea Autores Españoles.
Data de publicação: 1995.


[Série de três comicbooks de 28 páginas (26x17) com capa colorida e interior em preto e branco. Texto editorial na segunda coberta dos números um e três, e uma secção de cartas dos leitores titulada Correo de Necrópolis.]

Este outro tebeo também pertence a mesma editora e colecção do grampo enferrujado, Tebeos Glénat - Línea Autores Españoles. Hoje não me lembro se Hombres y bestias foi a primeira série da colecção, uma colecção esquecida que se viu eclipsada pelos comicbooks espanhóis da Línea Laberinto que sua competidora Planeta DeAgostini começou a publicar depois do lançamento dos grampos de Glénat. Ambas as duas colecções estouraram. 




Sangue, garras e fome insaciável crescem na Necrópolis de Rafa Garrés em semelhançã aos quadrinhos extremamente impactantes dos anos noventa chegados do mercado norteamericano. Uma história singela, um espaço desabitado, inexplorado, no que desaparece um grupo de duros soldados acostumados as atrocidades. Necrópolis, a cidade do futuro: "O que é a Necrópole? A Necrópole é um pesadelo postindustrial que se estende numa extensão de centos de quilómetros quadrados ao redor de New City. Faz alguns anos era o paradigma do progreso industrial." Trata-se do elemento mais atrativo da história, ainda que de forma quase embrionária; de fato, eu não sei se Necrópolis é o arrabalde da cidade ou seu antigo centro transformado pelo conjunto de gigantescas fabricas. Agora abandonadas, estas construções aparecem alagadas e convertem-se em subterâneos. Junto delas resiste uma catedral.






 

Este gibi não possui elementos sobrenaturais que eu saiba apreciar, mas o protagonista e seus adversários são personagens clássicos: Sabage, um mutante (espécie de licantropo), e o comando de metahumanos Termination Force. Quer se divertir averiguando quem persegue a quen? Todos eles são caçadores, mas só duas das bestas possuem uma natureza antiga. Uma casta ou raça.
Em qualquer caso, o passado de Sabage concorda com signos apocalípticos deste futuro postindustrial, e parece confirmar que as cabeças dos mortos devem-se enterrar dentro da cidade. Inimigos inesquecíveis e velhas armaduras.






 

- Rafa Garrés [link]--> Imakinarium
- Blog do desenhista []--> garres2.blogspot.com 

- Conan e Garrés []--> The Ultimate Conan Fanblog


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O filho mediador de David Rubín


Título: El Héroe (volume 1).
Roteiro e desenhos: David Rubín.
Editorial: Astiberri, coleção Sillón Orejero.
Data de publicação: abril de 2011.

[Livro colorido com capa cartonada e lombada colada e costurada, 17x24, 280 páginas. (Com o apoio de Roque Romero e Bernal Prieto na separação de cor dos capítulos 2, 5 e 9, do livro.) Prólogo do desenhista Paco Roca, e uma nota biográfica de David Rubín.]

As histórias aos quadradinhos são uma instituição ritual. Qualquer leitor desavisado, fã colecionador de tebeos/gibis, perguntou para eles o porquê dessa misteriosa questão. Mas às vezes essas coissas de papel não respondem, incomum para a época, já tenho visto um refrigerador conversar com um homem, e, então, impõe-se ficar com a roupa do autor desse quadrinho nas mãos. Ele tem as respostas!? Agite o quadrinista antes de usar.
Sei que é frequente um desenhista estar disposto a reconstruir un mito, mas parece-me difícil de acreditar que David Rubín só cobice reconta-lo. Eis algo evidente, atualmente este autor poderia ser conhecido como o maior contador de contos dos quadrinhos espanhóis; enquanto já explorou a produção de obras unitárias de longa ou média extensão, ainda que privilegiou a encenação metafórica de aspectos ignorados (o ton das histórias) em todas elas. Um atalho atraente que culminou com Cuaderno de tormentas, marcha progressiva de instantes psíquicos dum autor-protagonista vencido pela potencialidade antagónica de suas própias criações. Desafio aos leitores fieis, que nem tudos superariam.Há apenas uma coisa que voçê deve se precaver o mercar uma BD deste desenhista espanhol: gosta de contos e mitos?
Talvez voçê não errou na hora de mercar El Héroe, alem disso, atopou um tebeo muito raro... "Hércules virou superherói mangá!"


Vitoria por acumulação iconográficaJá percebi que os dias chuvosos é placenteiro voltar a ler esta primorosa HQ. Na que torna-se apreciável a análise (consciente ou inconscientemente) do herói solar, pois, mais além da infelicidade doutras revisões intelectuais, cruamente estúpidas e vacias, o quadrinista espanhol reconta um mito ao que agrega o símbolo iconográfico do superherói. É por isso que os Doze trabalhos de Hércules aparecem ligados sentimentalmente por episodios sexuais de amadurecemento mediante os que a façanha torna-se mais importante do que os aspectos da submissão ao destino doutras maldosas traduções deste mito. "Está batendo à porta o Gilgamesh de Jim Starlin!"
Acção é acção. O exercício da acção violenta e a execução da façanha são o mais importante. Ainda que somentes as margens da narração coloram a linha entre o bem e o mal até satisfaze-la sua faminta e cortante singularidade. O relatório sexual de Hércules. Euristeo. Hera. Os escasos aliados e amigos. O bem e o mal.
Mas isso já foi visto noutras HQs. O projeto autoral de acumulação iconográfica surge do pessoal desciframento do mito do herói solar, no que, por exemplo, David Rubín troca o facho purificador que impedia a regeneração das cabeçãs da Hidra de Lerma por um bombardeio aéreo seletivo sob espectativa delirante de que seu herói pop posui, como equivalente para o bronce grego, uma catana. Estes detalhes acumulativos entretecerão uma imaginativa controvérsia, pois neste mito recontado cresce o antagonismo entre um icono verdadeiro e o ídolo ou fetiche publicitario; no deciframento deste mundo arcaico e futurista deparamos com revistas, gelados, comicbooks e produtos utilitarios, o merchadising de Hércules, uma acumulação iconográfica polêmica. Mas também mediadora. Algo que se manifesta ambiguo durante as primeiras aventuras, até intercalar um debate radiofónico na sede central de Radio Oráculo, em Atenas, onde o velho mestre de Hércules, Quíron, defende ao herói contra a banalização de sua gesta. Um debate titulado 'Heracles: Herói ou produto' que Hércules esta a escutar (co seu iPod!) nos currais do rei Aúgias.
Mas o leitor imposível deste texto improvável pode desejar mais do que soube explicar. Eu não encontrei imagens esclarecedoras. Só roubei uma página misteriosa, veja a imagem acima a dereita, um enigma antes do prólogo, trata-se de David Rubín?
Ele foi um leitor ritualista e atualmente um autor platónico de historietas. No final deste primer livro Hércules ve-se asediado por um bonifrate muito odioso para Alejandro Jodorowsky. Eu não revelarei sua linagem porque gostaria de ver este tebeo nas mãos dos leitores portugueses e brasileiros. O leitor verá a Diana. Desfrutará dos bonecos do Quarto Mundo. Poderá apreciarem entre outros recursos clásicos da banda desenhada uma espectaculosa transição simbólica da cauda duma estrela até o cordão umbilical dum herói. Corpos de serpes, as cabeças da Hidra e os cabelos espinhosos como veias ou raízes sanguentas de Hera, e a intimidade amorosa do laço.
"E um pássaro de Alberto Vázquez e um homemtouro de Santiago Sequeiros? "

Tebeosfera. Revista web sobre historieta nº 7




Hijos de la democracia
Neste número a revista Tebeosfera oferece para o leitor estrangeiro uma interessantíssima expossição de artefactos (tebeos) e maravilhas (artigos, resenhas e entrevistas), um mostruário de prodigiosos jovens desenhistas, roteiristas e humoristas gráficos espanhóis. Um espelho como os dos mitos e as tradições folclóricas onde este leitor espanhol achou ele mesmo, muito juvenil. Muito monstruoso e cheio de possivilidades. "Possivilidades democráticas!?"Pão ou não pão: that is the question. Ou o que fosse. 84 Textos coordinados pelo divulgador e teórico Félix López sobre autores nados depois do 20 de novembro 1975, data oficial da morte do desmoralizador nacional Francisco Franco Bahamonde ('el feo de las pesetas' caricaturado por Belmonte). Desenhistas como David Rubín entrevistados mediante um modelo exigente, mas flexível, que permite extraírem conclusões para os leitores portugueses e brasileiros comprender o mercado espanhol e seus autores.
[link]--> Sumário[]--> Um espíritu libre. Entrevista a David Rubín.
[]--> Ficha de David Rubín no Gran Catálogo de la historieta

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Viñetas desde el Atlántico 2011

Oswald Spengler até tentou destruir o aparelho de mais dum millão de peças de cerámica e farrapos MP-1958, popularmente chamado de soprador de historietas, que constrói vinhetas de cem em cem anos no mês de agosto na Corunha. Seu fracaso é a victoria dos desenhistas, roteiristas, críticos, livreiros, leitores, e algum editor, que empregaram utilmente o espaço urban.
A nova edição acontece em agosto, a partir do dia oito até o catorze, ainda é praticamente impossível ficar por dentro de tudo o que vai acontecer; já surgiu na web a primeira noticía oficial sobre os diversos nomes e exposições [link]--> http://www.vinetasdesdeoatlantico.com/

Antes do novo festival começar está nos planos deste faminto bloguista recomendar novos e velhos tebeos, autores espanhois, e algum local relacionado com o paladar:


Seu governo não quer confronto sobre a questão, mais voçê sabe que os leitores de banda desenhada e histórias em quadrinhos introduzem alimentos solidos na boca. Os olhos dos leitores de tebeos comem, mas também as suas bocas.
No caso de ter pernas diminutas e um corpo minguado (igual ao meu) compareça num estabelecemento o mais perto possível do Kiosco Alfonso, lugar de exposições e conferencias de Viñetas desde el Atlántico. A Sidrería Casa Lelín (calle de los Olmos, 16) dá ao desfrute de visitantes estrangeiros gastronomía galega e asturiana, é o meu conselho []--> www.casalelin.es
Depois da comida um bom remedio para emagrecer, visite a Biblioteca Infantil e Xuvenil no edificio Salvador de Madariaga. O lugar faz parte do evento onde são expostos os Prémios Castelao de cómic. Uma biblioteca com tebeos e um horário alternativo (luns a venres de 09.00 h a 14.00 h e de 15.00 h a 20.00 h. Sábado de 10.00 h a 13.00 h) para os visitantes neste festival.



Jordi Lafebre, Antonio Altarriba, Teresa Valero, David Rubín:




























































sexta-feira, 6 de maio de 2011

Uma aventura alquímica do Eternauta.

Título: El Perro Llamador y otras historias.
Roteiros: Sergio Kern, Toni Torres, Mauro Mantella.

Desenhos: Solano López, Salvador Sanz, Cristian Mallea,
Jok, Enrique Santana, Sergio Mulko, Ariel Rodríguez Migueres, Enrique Alcatena.
Editorial: Doedytores, coleção Universo Eternauta.

Data de publicação: abril de 2010.


[ Álbum em preto e branco (27x20), capa mole, 64 páginas. Cada capítulo ou historia vem precedido por um prefácio dos autores. Ilustação da capa de Solano López e Pol (Pablo Maiztegui). 3000 Exemplares.]


Este álbum é a terceira entrega da coleção Universo Eternauta dirigida pelo desenhista Solano López e publicada por Doedytores. Também é o quadrinho argentino que quis ler desde a primeira vez que eu vi (em internet), pois este terceiro álbum encerra a conclusão duma das historietas na que mais imaginativamente tenha sido recreado Juan Salvo, o inseparável soñante de Oesterheld e Solano López, junto a duas histórias extras. Narrando uma delas o encontro entre o Eternauta e outra importante criação argentina imortal, Gilgamesh. Dos favoritos deste bloguista espanhol.

Sergio Kern
conta em sua apresentação a oportunidade na que conheceu a Solano López em 1982 durante o primeiro Salón del cómic de Barcelona. Um feliz encontro entre roteirista e desenhista do que surgiria este sempre postergado empenho por criar novas histórias com o Eternauta, hoje retomado pela Doedytores:

"Me dijo que quería dibujar un nuevo Eternauta, una versión distinta a las que se venían haciendo desde que había dibujado el clásico que escribió Oesterheld en los años 50. Me pidió que escribiera el nuevo guión y me comentó que quería retomar desde el final de la primera versión de Oesterheld, cuando, el Eternauta queda en un sitio yermo, solo.

Me dijo que cada nuevo álbum del Eternauta comenzará en un solitario sitio de algún nuevo planeta y habló de llevar la historieta del nuevo héroe argentino a un lugar atemporal y universal."

Pese o desenhista argentino realizar outras novas aventuras como o álbum titulado
El mundo arrepentido (reeditado no nº 1 da coleção) ou a série El regreso, esta extraordinária obra ficou inconclusa até a criação do Universo Eternauta. Em cujo terceiro número por fim uma nova geração de desenhistas argentinos foi convocada para ilustrá-la continuando o primeiro capítulo de oito páginas desenhado por Solano -páginas que muitos leitores conhecíamos apenas por ter sido publicadas no livro Solano López. En primera persona (Ancares Editora) -também distribuído na Espanha-.

El Perro Llamador (O Cão Avisador)
Não é certo, mas as vezes eu creio desejar não ter lido El Eternauta de Oesterheld e Solano. Esta verdade não pode ser mascarada. O que aconteceria se eu não tivesse feito isso? Pensando na história, desagregando o protagonista da Terra... Solucções simples e práticas, sonhar ou imaginar.

A cratera de Kern. Uma aventura alquímica do Eternauta.

Posso ver um ser humano saído do nada. Do ar envolvendo a terra. Um primeiro homem, quiçá um homem de luz, materializando-se num páramo celeste. Ele estava ali o tempo todo? Quiça desconheça a resposta, ou não precise dela para ir dum lugar para outro, mas parece um peregrino. E não caminha sobre as águas, da passos na areia como um viajeiro do destino borda suas pegadas no solo que começa.
É este ser um homem divino?
Uns meninos nus não podem sabê-lo. Só tenhem seu múrmurio musical "...MMMMMMMMMMMMMMMMM", um canto de vermes dormidos, de humanidade esvaecida. Quiçá este deserto é cinza doutro tempo que se expõe no interior duma gruta como num museu, com desenhos primitivos duma tribo onde já não existe o homem. Por isso Juan Salvo o Eternauta se materializou ali, porque o Eternauta recorda. Ele sempre recorda.
Sai a fumaça da terra com seu calor interior. O Eternauta caminha para o crater descendo junto a tribo de meninos nus e escuta o chamado duma humanidade ressumbrada contra seu própio inconsciente, uma voz glotona que fala. Voz sitiante, um cachorro, diz a voz, um deus do tempo, um lobo estando a viver muito abaixo na terra, que não recorda como se produziu a extinção da humanidade, mas existe como surge uma mancha preta numa ensonhação: também capaz de afundar em sua boca a este peregrino! Uma laguna vaporosa onde a personalidade abala-se e o índividuo logo em seguida deseja entregar-se ao esquecimento. Mas nunca o Eternauta, porque ele, Juan Salvo, sempre lembrará.

Esta é a história que creou Sergio Kern e Solano López desenhaba no momento em que Juan Salvo introducía-se no nevoeiro incestuoso do Perro Llamador onde se perdiam os meninos até consumir seus corpos e suas memórias. O enigma foi entregue a novos desenhistas Salvador Sanz, Cristian Mallea (assistido por Jok), e Enrique Santana, e hoje os leitores sabemos o que o ar que aparecia como fogo dum forno íntimo falaba: uma nova humanidade e uma nova terra.

As outras duas historietas autoconclusivas que completam este álbum também são obra duma confissão e dum tecelão. A primeira delas, El día en que Gilgamesh y el Eternauta se encontraron, com roteiro de Toni Torres e desenhos de Sergio Mulko, narra o encontro entre os dois viajantes do tempo Gilgamesh o imortal e o Eternauta no dia em que Buenos Aires era invadida, como se contou no Eternauta original (1957) obra de Oesterheld e Solano. Uma aproximação mediante a que Toni Torres conquista amorosamente, com liberdade e respeito, o passado e o futuro de ambos os protagonistas.
Essa mesma admiração é o tecido principal de La Balada de los Gurbos, roteiro de Mauro Mantella e desenhos de Ariel Rodríguez Migueres e Enrique Alcatena. Uma história que recupera o formato horizontal do Eternauta de 1963 e os míticos gurbos, o interesante é que com dez páginas conta-se a cosmología destas criaturas. E quem sai por cima disso tudo é um mano. O protagonista é um mano!




Universo Eternauta [link]--> Mas historietas argentinas

Resenha do periodista Andrés Valenzuela []--> El último Eternauta

Universo HQ []--> El Eternauta

[]--> Salvador Sanz Cristian Mallea Ariel Rodríguez



Título: Solano López. En primera persona.
Autores: Andrés Ferreiro, Hernán Ostuni y Javier Doeyo.
Editorial: Ancares Editora.
Data de publicação: 2001.

[Livro (17x26) de ilustrações, páginas e desenhos, rascunhos e quadrinhos inéditos do Eternauta de Solano López. Capa mole, preto e branco. Prólogo de Javier Doeyo
.]

Ainda que existe uma segunda edição do sketchbook (com uma capa diferente e material adicional) esta primeira edição continua a ser um manancial de informação ao respeito dos méritos de Solano López e o Eternauta. Um ótimo exemplo são as seguintes páginas de La Vencida, um modelo da forma em que são apresentadas todas as versões, projetos inconclusos, e aventuras do Eternauta desenhadas por Solano López desde 1957 neste livro:







Entrecómics []--> Solano López e Viñetas desde el Atlántico




Título: Oesterheld (Rey de reyes).
Autores: Judith Gociol e Diego Rosemberg.
Editorial: Sinsentido, coleção Sinpalabras.
Data de publicação: 2007.

[Livro (16x18) teórico sobre quadrinhos com badanas, capa mole, preto e branco, 72 páginas. A coleção Sin palabras é uma produção do Colectivo Lápiz de Tinta]



Pequeno é maravilhoso livrinho da editorial Sinsentido na sua coleção Sinpalabras adicado ao roteirista argentino. Um projeto marcante de livros teóricos de preço acessível onde atopar textos elaborados sobre autores como Alan Moore, Enki Bilal, Berni Wrightson ou Carl Barks, e personagens dos quadrinhos como Conan, Spiderman e Luluzinha (Little Lulu). Fundamente conmovedor e ilustrativo (ademais de fotos e ilustrações, tres páginas com obras de consulta sobre o autor):

EL INNOVADOR: UNA CIENCIA FICCIÓN NACIONAL.

En un sentido estricto la ciencia ficción Argentina nació en argentina en 1875 con la primera novela que utilizó los recursos de un género incipiente, incluso en Europa. Viaje maravilloso del señor Nic-Nac, de Eduardo Homlgberg (1852-1937), relata una transmigración de almas al planeta marte. Ahora bien, según sostiene el especialista Horacio Moreno, el nacimiento de la Cienci-Ficción argentina contemporánea está signado por la aparición, en 1940, de La invención de Morel, de Adolfo Bioy Casares (1914-1999), el primer escritor en hacer uso intencional de las convenciones del género. Así pues, cuando Oesterheld se incorporó al universo de los viajes espaciales y los platillos volantes, ese imaginario -que maduraba a velocidad en el mundo- estaba en desarrollo en Argentina.
La primera revista dedicada a la Ciencia-Ficción en el país fue Hombres del futuro (1947) y, aunque duró tres números, sirvió para sentar las bases de un público seguidor del género que se cconsolidó con Más allá (sello Abril, 1953-1957), y a su cuerpo de redacción se incorporó el guionista (para más de un especialista, prácticamente la dirigía). Aún hoy, se la sigue considerando como la mejor publicación que el país tuvo.
Autodefinida como una revista mensual de "fantasía científica", Más allá (48 núms.) se distribuía en toda Latinoamérica, e incluso acogió a cartas de lectores españoles y de la URSS. [...] Por entonces también confluyó en la Ciencia-Ficción otra corriente corriente literaria, la de los "viajes extraordinarios", como la llamó Julio Verne, buenas excusas para cuestionar la política terrestre. Mientras eclosionaban la mitología ovni y la creencia en los grandes antiguos, razas superiores que habitaron la Tierra en tiempos remotos.
En este marco deben leerse las viñetas de Oesterheld que, en el caso de la Historieta argentina, no registraban muchos antecedentes significativos: El explorador interplanetario (PBT, 1916); Más allá, de Raúl Roux, publicada en el diario la Razón (entre 1938 y 1940). En esta última tira de tinte didáctico, aparecía Buenos Aires como escenografía en algunas partes del relato y el protagonismo se repartía entre tres personajes: un preanuncio de los recursos que hizo brillar Oesterheld.



Javier Mesón []--> El Coleccionista de Tebeos